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Hollywood, Montana

30.07.06

por Daniel Oliveira

Estrela solitária

(Don't come knocking, França/Alemanha/EUA, 2005)

Dir.: Wim Wenders
Elenco: Sam Shepard, Jessica Lange, Sarah Polley, Eva Marie Saint, Tim Roth, Gabriel Mann

Princípio Ativo:
A vida e o que o cinema fez com ela.

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Algumas semanas atrás, escrevi sobre um homem que teve a vida engolida pela arte. O protagonista de “Estrela solitária”, Howard Spence (Sam Shepard), deixou sua vida ser engolida pelo cinema. Mas de uma forma um pouco diferente do personagem de Depp.

O longa começa com Spence, um ator em franca decadência, fugindo do set de gravação. Depois de anos de boemia e escândalos, ele percebe que sua vida é um grande vazio. Sem amigos, sem família, sem o sucesso (longínquo) – e principalmente, sem lugar no mundo – Spence decide visitar a mãe (Eva Marie Saint), que ele não vê há 30 anos. O fato de que ela não o reconhece, quando ele sai do ônibus, é a comprovação de que o homem deixou uma vida de verdade ser consumida pelo mito do “glamour e sucesso” hollywoodiano.

E isso é um prato cheio para o politizado diretor Wim Wenders perguntar, muito sutilmente, quando foi que os EUA abandonaram a realidade e passaram a viver um blockbuster cheio de guerras e bombas - brilhantemente metaforizadas no temperamento agressivo do protagonista – no lugar dela. Essa América, que é mais cinema do que realidade, é retratada na busca de Spence pelo filho que ele não sabia que tinha. Informado pela mãe, ele parte atrás de Doreen (Jessica Lange), um antigo caso, e conhece o filho dela, Earl.

A pequena Butte habitada por eles parece saída de um clássico dos anos 40, tão artificial e tipicamente norte-americana. Contribui muito o apuro visual de Wenders, com fotografia e direção de arte irretocáveis. As cenas passadas ali, e a própria interpretação de Lange (ótima, por sinal), são afetadamente cinematográficas – e quem conhece Wenders e sua paixão por cinema vai enxergar o talento dele aí.

O grande porém de "Estrela solitária" é que ele cai na armadilha que critica. O filme não se decide entre o roteiro clássico e melodramático (no bom sentido), escrito pelo ator e protagonista Sam Shepard, e a crítica metalinguística de Wenders. Some-se a isso o produtor vivido por Tim Roth, exageradamente caricaturizado, e temos um longa que podia ter sido. O filme se apóia na ótima trilha e na presença cativante de Sarah Polley (Minha vida sem mim). Sua personagem é a vida que aparece na frente de Spence e ele reluta em reconhecer. As cenas divididas pelos dois são as melhores e só o monólogo final dela soa forçado.

O que resulta disso é um filme que não envolve como "Flores partidas", de premissa semelhante; nem é contundente no "menos é mais" de sua narrativa, como "Ponto final". Não queria ter o frescor de um "Paris, Texas", mas não precisava passar tão longe.

Lange, Shepard e o cinema segundo Wenders

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