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Obrigado por sacanear

21.08.06

por Daniel Oliveira

Obrigado por fumar

(Thank you for smoking, EUA, 2006)

Dir.: Jason Reitman
Elenco: Aaron Eckhart, Cameron Bright, Maria Bello, Katie Holmes, William H. Macy, J.K. Simmons, Robert Duvall, Rob Lowe, Adam Brody

Princípio Ativo:
tabaco

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“Obrigado por fumar” merece alguns agradecimentos:

Em primeiro lugar, aos fumantes, que gastam seu dinheiro e se dispõem a morrer de câncer, para que possamos ver um filme tão engraçado e politicamente incorreto. Obrigado por serem tão altruístas, ao ponto do lobbista Nick Naylor – defensor dos conglomerados do tabaco nos EUA e protagonista do longa - nem precisar de um astro do calibre de Brad Pitt ou Jude Law. Aaron Eckhart convence facilmente no papel, com um sorriso de dentes perfeitos, gravatas alinhadas e camisas impecavelmente brancas – e tudo mais que pode ser branco, cor da paz e que indica uma consciência tranqüila.

Obrigado, também, por aqueles dramas de programas vespertinos, em que pessoas com câncer terminal revelam os males que o cigarro faz. Quando estou deprimido e assisto a isso, sempre me sinto bem comigo mesmo por não fumar. Eles também geram uma das melhores cenas do filme, quando o senador Finistirre (William H. Macy) explica ao seu assistente: “quando levar um jovem com câncer de pulmão à televisão, tenha certeza de que ele está morrendo: sem conseguir falar e com um tubo na garganta, de preferência”.

Obrigado aos fãs da Joey de Dawson’s Creek, que sempre a veneraram como um modelo de perfeição. Só estigmatizada assim, a atriz Katie Holmes toparia fazer a repórter Heather Holloway – sem nenhum caráter, limites éticos ou morais. Como jornalista, reconheci uma representação fiel e sem julgamentos baratos. E Holmes nem precisa ser uma atriz sensacional para isso.

Obrigado ao diretor Jason Reitman, que captou a essência do romance de Christopher Buckley, em que o roteiro é baseado. Ao invés do drama pesado, de culpas e crises de consciência (como o ótimo “Réquiem para um sonho”), ele cria uma das melhores comédias do ano. A edição rápida e cínica mostra a desconstrução que Naylor faz da moral de seu filho (Cameron Bright, de “X Men: O confronto final”), sem julgá-la. O plano em que o lobbista observa o garoto, enquanto carrega uma pasta com suborno, é dúbio, completando-se somente no final.

Essa ausência de julgamentos pré-estabelecidos é a chave de “Obrigado por fumar”. Como o filme mostra, só se dá mal quem sente culpa ou tem crise de consciência. Filhos da puta de verdade nunca se estrepam. E afinal: se tem gente desprendida o bastante para destruir o fígado com álcool, gastar dinheiro com cigarro e votar contra o desarmamento, por que uma pessoa inteligente e articulada não pode ganhar dinheiro defendendo isso? Como Naylor diz, “a beleza de uma discussão é que, se você argumenta bem, você nunca está errado”.

“Penteado irado, ein?”

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