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Um Jogo, uma conspiração e dois astros na ONU

06.03.05

por Daniel Oliveira

A Intérprete

(The interpreter, EUA, 2005)

Direção: Sydney Pollack
Elenco: Nicole Kidman, Sean Penn, Catherine Keener, Sydney Pollack.

Princípio Ativo:
Clichês e astros

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Jogo dos cinco clichês com “A Intérprete”:

1- Figurões da política se esbaldando em uma boate de striptease.
2- Um policial com traumas pessoais mal-resolvidos.
3- Uma parceira desse policial competente e com toques de lesbianismo.
4- Uma protagonista frágil, mas com segredos que ela superará no final.
5- Uma cena em que os dois protagonistas se confrontam em uma forte discussão (querendo ganhar o Oscar)

Na verdade, os protagonistas de “A intérprete” não precisam de um Oscar. Eles já têm um. Tanto Nicole Kidman (que também está em cartaz com “Reencarnação”) quanto Sean Penn (Sobre meninos e lobos) já têm seus carequinhas dourados e, o mais importante, reconhecimento como bons atores. É por isso que o filme, dirigido por Sydney Pollack (Destinos Cruzados), e estrelado pelos dois, parece tão fraquinho e insosso.

Anunciado como o encontro dos dois astros e como o primeiro longa a ser filmado na sede da ONU em Nova York, “A intérprete” peca, acima de tudo, pela falta de ousadia e criatividade. Kidman é Silvia Broome, uma intérprete da ONU, que escuta o planejamento do assassinato do ditador do país africano onde ela nasceu. Penn é Keller, agente do FBI designado para investigar a suspeita.

Como não podia deixar de ser, o filme explora a interpretação de seus protagonistas, abusando dos closes e desfocando o fundo em várias cenas. O roteiro, porém, não ajuda: o passado complicado de Keller, por exemplo, que perdeu a mulher há pouco tempo, é um clichê mal trabalhado. Típico thriller político, “A intérprete” equilibra suspense e cenas de diálogo, que chegam a dar sono dada a péssima qualidade.

Você quase tem pena de Sean Penn quando ele é obrigado a dizer bobagens como “Se você matá-lo, ele vai morrer”. Um ator tão bacana não merecia isso. Sem contar as constrangedoras cenas com Dot Woods (Catherine Keener), parceira de Keller, uma das personagens coadjuvantes mais risíveis e dispensáveis deste ano.

Com o filme centrado nos protagonistas, Pollack usa a bela locação da ONU apenas como pano de fundo, perdendo a chance de explorá-lo como um personagem do roteiro. A história política é, apesar de tudo, interessante e bem atual, mas acaba prejudicada pelos melodramas anexos. O diretor, que já trabalhou no gênero antes (Os três dias do condor), também tem seus bons momentos, como na seqüência em que Silvia escuta a conspiração e, à medida que o som fica mais claro, Pollack foca o fundo, onde a cena se desenrola.

“A intérprete” não decepcionaria tanto se não tivesse nomes tão bons envolvidos na produção. No final das contas, a única discussão para o espectador, quando o filme acaba, é: por que Nicole Kidman não tira a franja do olho?

Kidman e o cabelo no olho: será que não incomoda?

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