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Origem

13.09.06

por Rodrigo Campanella

O Tempo que Resta

(Le Temps qui reste, França, 2005)

Dir.: François Ozon
Elenco: Melvil Poupaud, Jeanne Moreau, Valeria Bruni Tedeschi, Daniel Duval

Princípio Ativo:
um homem vivo

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É bem fácil sair mudo desse filme, não tanto pelo clima pesado da história mas pela ótima sensação de que tudo que tinha que ser falado estava lá na tela, e só resta sentar no boteco, tomar alguma coisa e tentar engatar uma outra conversa qualquer.

A história do filme é a de Romain (Poupaud), fotógrafo de trinta e poucos anos, homossexual bem-assumido e ser humano que toma a vida como um jogo de queimada, esquivando do que pode e demolindo o que vem na frente. A esquiva é personagem principal no filme anterior de Ozon, “Amor em Cinco Tempos”, mas se lá era uma opção do casal Gilles e Marion levá-la ao extremo da separação, aqui não há escolha. Romain vai morrer, no máximo em três meses, de um câncer cerebral.

Enquanto o fotógrafo endurece sua barreira contra o mundo, o diretor François Ozon coloca a câmera para enxergar qual a possibilidade de dissolver esse muro, forçando personagem e público a olharem lá atrás, onde começou a não ser paga a fatura que já fazia do protagonista um morto em vida.

Assumido mas não bem-resolvido com sua opção gay, nem assumido nem resolvido como irmão ou filho ou amante, Romain, que já não era tão vivo antes do diagnóstico sinistro, usa o fim como ponte para se entender com suas origens, algo simbolizado na figura de um menino no espelho que volta em outros lugares da história. É para o homem que faz da morte a coragem para amar a própria história, e dar continuidade a ela, que o filme existe.

Os meses terminais do fotógrafo aparecem na forma de uma aula completa de como emoldurar bons atores em uma seqüência de imagens maravilhosas, dar o nó nos lugares certos, cortar nas pontas e chamar o pacote completo de ‘filme’. Cortesia de uma abençoada fotografia de Jeanne Lapoirie junto de uma equipe fina de produção.

O jeito rígido de enquadrar e os cortes ardendo de secos de Ozon só aumentam a sensação de falta de controle, do filme e de alguém somando as últimas horas. Responsável também pelo roteiro, o diretor vai fundo na questão e termina por colocar numa película a resposta de porquê alguém evita congelar e guardar as imagens de quem ama. Afinal, fotos ou fotogramas existem para lembrar aquilo que vai, inevitavelmente, morrer.

Vida que segue, vida que fica

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