Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Contadores de histórias

10.03.05

por Daniel Oliveira

Peões

(Brasil, 2004)

Direção: Eduardo Coutinho

Princípio Ativo:
Eduardo Coutinho

receite essa matéria para um amigo

A câmera de Eduardo Coutinho tem algo de especial. É impressionante como, frente a ela, pessoas comuns, a quem ninguém daria muita atenção, tornam-se ávidos narradores de grandes aventuras: suas próprias vidas. Por vezes, a maior parte das emoções e dos feitos homéricos é uma clara encenação, mas Coutinho não impede isso. É exatamente essa sua “realidade”: a verdade do homem comum e como ele enxerga sua história.

Daí, talvez eu tenha que mudar a primeira frase desse texto. Atribuir a qualidade dos filmes do cineasta a uma máquina seria um equívoco ingrato. Coutinho trabalha com pessoas vivas. E, na vasta gama de documentários que são produzidos hoje, só ele parece conseguir, com tamanha delicadeza, relatos que são, ao mesmo tempo, tão simples e tão cativantes.

É isso que torna “Peões” tão interessante. Ao contrário de Entreatos, de João Moreira Salles, o filme sobre os metalúrgicos do ABC que participaram das greves do fim da década de 70/início dos anos 80, com o então sindicalista Lula, não quer ser, primordialmente, um registro histórico para o futuro, mas sim um reconhecimento pessoal de cada um dos entrevistados. O cartaz do filme representa exatamente a ação de Coutinho: encontrar o sujeito, no meio da multidão de fotos e imagens, e reconhecê-lo como protagonista de sua própria história.

A intimidade buscada pela direção permite que os entrevistados se sintam tão à vontade para falar de suas vidas tão abertamente, possivelmente pela primeira vez. Coutinho não usa outras imagens enquanto eles falam. Seu enquadramento é cirúrgico e ele mostra não mais que o necessário em cada cena: quando um senhor faz referência a sua filha que, a princípio não quer aparecer, ele deixa o plano um pouco mais aberto para o lado em que ela está, sem mostrá-la; quando tudo o que interessa é a emoção de um entrevistado ao reavivar suas lembranças, ele enquadra somente o seu rosto.

É tudo de que Coutinho necessita como prova para seu documentário. E você tem certeza de que aquela atitude e aquele enquadramento, já utilizados em “Edifício Master” e tantos outros, são os únicos possíveis para contar aquelas histórias. É por isso que se tem a impressão de que “Peões” é um filme bem mais autoral que “Entreatos”, que se apóia muito na qualidade de seu conteúdo.

Os documentários de Coutinho, na sua fuga do apuro formal, criam sua própria forma. Ao final do filme, você pode se perguntar como conseguiu assistir a uma série de pessoas falando, com poucos planos de corte, por mais de uma hora. Acredito que é graças ao talento de Coutinho e suas pessoas comuns, que se afirmam como os melhores contadores de história brasileiros.

D. Luisa: histórias sobre brigas, palavrões e liberdade

» leia/escreva comentários (0)