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Cartoon Fiction – Tempo de demência

19.09.06

por Daniel Oliveira

Xeque-mate

(Lucky number Slevin, EUA, 2006)

Dir.: Paul Mcguigan
Elenco: Josh Hartnett, Bruce Willis, Lucy Liu, Morgan Freeman, Sir Ben Kingsley, Stanley Tucci

Princípio Ativo:
Vendetta

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Cinema é uma grande mentira. Sinto muito em destruir seu mundo colorido de faz-de-conta, mas aquilo ali não passa de um belo engodo - a Angelina Jolie não usa shortinho e sai por aí atirando em marmanjo. Mas quanto maior for a mentira e tanto mais ela te convencer, melhor.

É por isso que o tom farsesco da primeira metade de “Xeque-mate” é tão divertida e melhor que o final. O diretor Paul Mcguigan (Paixão à flor da pele) fez um filme de gangster contemporâneo. Contemporâneo no sentido de que o protagonista Slevin (Josh Hartnett) é confundido com o amigo Nick e obrigado pelo chefão da máfia Boss (Morgan Freeman, sem interpretar o velho sábio desta vez) a matar o Fada, filho gay do Rabino (Sir Ben Kingsley), outro credor de Nick, que também o confunde com Slevin e cobra dele a dívida do amigo. Ainda no encalço do protagonista, estão o assassino Sr. Goodkat (Bruce Willis, na sua melhor interpretação de Bruce Willis em anos) e a polícia.

Achou fudido? Bem, só você, porque Slevin não está nem um pouco preocupado. O cara é cool. Muito cool. Em todos os sentidos. Ele é um poço de tiradas engraçadinhas e, logo na primeira cena, já está com o nariz quebrado por falar demais. O Boss define bem: “Aposto que foi essa boca que te fez ficar com esse nariz”.

Diálogos como esse e a ótima atuação de Hartnett fazem da primeira hora de filme um carrossel desgovernado a 200 por hora – ou seja, diversão total. O ator apresenta um inesperado talento cômico e nunca mais deve ter que morrer em um filme só porque o Ben Affleck é mais famoso. As cenas dele com Lucy Liu têm um timing rápido invejável – com destaque para a discussão sobre James Bond.

Aliás, Lindsey, a personagem de Liu, parece saída de um cartoon da Looney Tunes, entrando e saindo de cada cena como se tivesse deixado a panela no fogo. O roteiro do estreante em longas Jason Smilovic tem um aspecto cartunesco, mas não caricaturiza seus personagens – a própria Lindsey não é só um “interesse amoroso” qualquer e tem uma função importante ao final.

Mcguigan e seu “Xeque-mate” se saem melhor na comédia sangrenta do início, com músicas e edição a la “Pulp Fiction”. A vendetta séria do final, com direito a trilha a la “Era uma vez na América” e “Poderoso chefão”, não é ruim – só não faz jus ao início. O problema pode ser que eu procure a direção do Coppola e o Al Pacino em todo filme de gangster. Ou pode ser a tal trapaça Kansas City do filme: ela faz você olhar para a direita, enquanto a história vai para a esquerda. Mas é que a direita estava tão boa...e isso é a prova de como funciona uma mentira bem contada.

“Magrelo por magrelo, pelo menos eu penteio o cabelo...”

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