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Lições com o cinema

21.09.06

por Rodrigo Campanella

O Pequenino

(Littleman, Estados Unidos, 2006)

Dir.: Kennen Ivory Wayans
Elenco: Marlon Wayans, Shawn Wayans, Tracy Morgan, Damian Wayans, Kerry Washington

Princípio Ativo:
erre a sala e entre em outra sessão

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Se o trailer de “O Pequenino” promete diversão, é mentira. O que o filme entrega são lições, bem interessantes, para provar que até desperdícios de película podem ser úteis:

Fazer vários filmes não significa, necessariamente, um aprendizado

Há cinemas para todo tipo de paladar, mas os irmãos-brothers Wayans estão só empenhados em fazer sopa usando o que há de mais apelativo e bobo. No quinto filme juntos (direção, produção, roteiro) conseguem descer mais um degrau na escada que teve o escracho de “Todo Mundo em Pânico”, despencou na seqüência “Todo Mundo...2” e passou por “As Branquelas”. “O Pequenino” é o degrau mais baixo na escalada invertida: uma idéia mal trabalhada, um roteiro que foi esquecido no escritório nas filmagens e atuações que parecem auto-paródias. Daí a segunda lição.

Dá para repetir o erro quase setenta anos depois

O cinema é arte recente. No início do século XX atores ainda tentavam encontrar para as telas um tom de interpretação um pouco menos expansivo que o do teatro de palco. Quando o cinema ganhou voz, veio a necessidade de uma atuação ainda mais sutil – o que caía bem no palco agora explodia em exagero na imagem direcionada e ampliada da tela. E então chega um filme, nesse 2006, com gente sem muita expressão se esfalfando para transformar esforço interpretativo em esforço físico – e dá-lhe caras e bocas exageradas . O que faz pensar que...

Cada um tem o “Saturday Night Live” que merece

O humorístico americano de nome mui criativo é mediano. Boa parte das piadas é tão ácida ou tão absurda que perde a graça. O caso é que “SNL” também tem gente fazendo caras e bocas exageradas com diálogos recitados. Mas isso, lá, é intencional. E contribui para a risada, quando o texto ajuda. Já n’ “O Pequenino” é barbeiragem das grossas, que torra a graça possível de qualquer gag. Mas, afinal, nosso “SNL” chama-se “Zorra Total”, um programa baseado na possibilidade do espectador rir antecipando a piada, que é sempre a mesma, como defende o colega Matheus Cajaíba, do Abacaxi Atômico. É por aí que “O Pequenino” deve fazer sucesso no país.

Literatura pode ajudar nas piores situações

Daniel é um famoso humorista em “A possibilidade de uma ilha”, de Michel Houellebecq. Conquistou cada horizonte de sua fama descendo um degrau no nível de suas piadas. Ficou amargo, cruel e rico. Com público cativo. Se você puder, leia esse livro antes de ver “O Pequenino”. É sua chance de preencher com diversão aquilo que passa na tela e rir de nervoso por vontade, e não por vergonha.

Alguém devia ter dito que essa roupa não caía bem nele.

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