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29.09.06

por Rodrigo Campanella

As Torres Gêmeas

(World Trade Center, advinha, 2006)

Dir.: Oliver Stone
Elenco: Nicolas Cage, Michael Pena, Maria Bello, Maggie Gyllenhaal

Princípio Ativo:
Curso “Pearl Harbor” de cinema

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Saí do cinema aos tropeços, buscando pelo chão os caquinhos do ‘ótimo filme’ que eu esperava ver depois de uma dezena de elogios em revistas e jornais. Encontrei apenas a certeza de que a cegueira voluntária e a ignorância política de boa parte dos Estados Unidos encontraram, que bom, enfim, endereço certo para correspondência.

Se todo texto estabelece diálogo com outros textos que vieram antes dele, esse é uma resposta direta aos comentários que me fizeram esperar algo bom de uma das piores sessões do ano.

“...não há ufanismo ou excesso de patriotismo”

Se ufanismo se resumisse a ‘bandeira estrelada e listrada’, eu teria que concordar – elas mal comparecem. Em compensação, dá-lhe heróis infláveis e lições edificadoras. Os dois policiais presos nos escombros do World Trade Center são limitados a uma história esquemática de tragédia-resgate, com atores mantendo fixa a expressão altiva de ‘herói’. A gravidade exagerada se repete no rosto das esposas, esperando notícias que não vem. Não é gente, é uma impávida América, que no final fala pela boca de um fuzileiro pródigo: “Não sei se vou trabalhar, eles vão precisar de bons homens para se vingar desse ataque”.

“...ainda no início, o filme passa a se resumir a uma linda seqüência de closes dos policiais soterrados”

Se a graça dos closes é usar o mínimo, um rosto, para alcançar o máximo de emoção, “Torres” fica no mínimo para o mínimo mesmo, e neles exibe melhor o quanto o filme todo lembra uma superfície chapada, onde alguém roubou a terceira dimensão. A fotografia é tão de chapa quanto os diálogos – mesmo quando há sombra, ela é um bloco duro separado da luz. Stone, hoje, filma a falta de sutileza como ninguém.

“...é a visão da tragédia pela intimidade.”

Na verdade, a montagem que intercala soterrados e famílias não fica devendo a qualquer novelão. O mergulho no melodrama ultrapassa o pescoço mas rende uma das poucas emoções com o reencontro ao final. Ali o filme assume parte do apelo humano que poderia ter explorado nas doze horas de dois homens isolados conversando para afastar a morte.

“...não há espetáculo algum na tragédia”

Não dizer que é espetacular o cenário de escombros construído ou o trabalho de pesquisa e reconstituição daquele dia é tirar um mérito justo. É possível ainda saciar a curiosidade e passear alguns minutos no interior das torres. Mas o apelo humano foi trocado, pano rápido, pelo patriótico. Á sombra das torres ausentes, fizeram um filme típico de YouTube. É lá que filmes com interesse caseiro e limitado são expostos para o mundo todo.

Primeiro "O Senhor das Armas", agora esse:
Nicolas Cage surfa pela imaturidade política americana.

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