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Cabeça de um, focinhos de outros

09.10.06

por Mariana Souto

Muito Gelo e Dois Dedos D’Água

(Brasil, 2006)

Dir.: Daniel Filho
Elenco: Mariana Ximenes, Paloma Duarte, Laura Cardoso, Thiago Lacerda, Aílton Graça

Princípio Ativo:
múltiplas personalidades

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É difícil definir o que deu errado em “Muito Gelo e Dois Dedos d’água”. Só sei dizer que não é pouca coisa. As atuações são caricatas, mesmo os atores não sendo ruins. Ler o texto seria divertido, mas ouvindo tudo soa sem graça. A mesma estética em outro filme seria interessante, mas nesse não funciona. Resta então pensar na direção.

O argumento de duas irmãs prendendo a vó no porta-malas para dar-lhe o troco do que a velha fez - alisou seus cabelos, tirou cutículas, obrigou a irem para a casa de praia - não pode ser levado a sério. Falta sarcasmo e humor negro para ambientar a vingança... e um diretor adequado. O problema é o meio do caminho entre as trevas de Fernanda Young (roteirista) e a leveza de Daniel Filho.

O roteiro soa autobiográfico, sendo a personagem de Mariana Ximenes o retrato de Young. E quanto abuso das atrizes... Paloma Duarte troca de roupa o tempo inteiro, sem explicação – fora as várias cenas de nudez gratuita. Vai ver, o orçamento da produção não deu pra comprar sutiã. Abuso é também o merchandising tão escancarado que pega mal para a própria empresa.

“Muito Gelo” tem um clima de tv, mas traz elementos estranhos a esse meio, como a percepção florida das drogas e a trama maliciosa. Aliás, maliciosa, infantil e injustificada. As irmãs reclamam do que fez a vó, mas adultas alisam o cabelo, divertem-se no sol e desfrutam da casa de praia. Então, qual o problema com a velha? O drama classe média alta de duas meninas mimadas de elite não guarda crítica alguma. Difícil ter cérebro e não desanimar.

O filme se passa numa atmosfera irreal e psicodélica – referência às drogas. Daniel Filho investe numa fotografia caribenha, ressaltando as cores, as atuações teatrais e a trama, inverossímil. Nada disso é ruim – só que parece não haver unidade entre os elementos, resultando numa obra estranha.

Atualmente, há um movimento do núcleo Globo buscando uma estética trabalhada, que fuja ao realismo típico de novelas. “A Máquina” é um exemplo bem-sucedido dessa visualidade. A proposta de Muito Gelo é boa, mas não funciona. As intervenções sobre a imagem de Laura Cardoso lembram a foto de alguém respeitável rabiscada de caneta Bic. Por outro lado, o céu de aurora boreal, remetendo à Antártica (um dos melhores momentos), alcança um resultado bonito. É admirável que os diretores de tv aproveitem a liberdade do cinema para experimentar. Um dia eles acertam.

Paloma Duarte apresenta o traje passeio completo
na versão do filme.

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