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Lego de gente grande

10.11.06

por Daniel Oliveira

Os infiltrados

(The departed, EUA, 2006)

Dir.: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo Dicaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Martin Sheen, Alec Baldwin, Vera Farmiga, Mark Wahlberg

Princípio Ativo:
A diferença

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É preciso atitude – e certa elegância – para mandar alguém tomar no cu. Ou se foder, ou as variáveis. Não é qualquer filme com um diálogo destes:

“Vá se foder!”
“Eu estou cansado de foder sua esposa.”
“Ah, é? E sua mãe, tá boa?”
“Sim, ela está cansada de foder meu pai.”


que ainda é capaz de ser um dos mais contundentes, questionadores – e divertidos – do ano. Ou melhor: não é qualquer diretor que faz isso. Teve um esse ano que tentou, mas já largou com o título de vice. Só um Scorsese sabe olhar para o mundo d’Os infiltrados”, sem enxergar policiais ou bandidos – mas homens tentando não perder sua identidade.

Assim como em “O aviador”, “Taxi Driver” e tantos outros, o que importa ao cineasta não é a trama policial, mas seus personagens. Onde começa o policial Billy Costigan (Dicaprio); e onde ele termina após se infiltrar na gangue de Frank Costello (Nicholson). Do que Colin Sullivan (Damon), policial “protegido” de Costello, é capaz no início; e o que ele faz no final. Scorsese brinca de Lego com seus dois protagonistas, desconstruindo o óbvio e explorando os cenários que o monta-desmonta proporciona.

Ele, finalmente, consegue que Dicaprio retire a máscara de astro adolescente e libere uma descarga de violência e paranóia, que tornam impossível saber se Costigan é vítima ou monstro. A cena, no começo, em que Dignam e Queenan o “informam” de sua missão, além de intimidante, é um aviso: “nesse filme você não vai ser o Dicaprio, nem pagar de gatinho. Você vai se foder, todo mundo vai te foder e ninguém tá nem aí se você é o astro”.

Já Damon cospe na cara e chuta as bolas do soldado Ryan, enterrando de vez o protótipo de bom moço. Com Sullivan, ele assume um personagem dúbio – charmoso e asqueroso ao mesmo tempo – que se esconde até o último momento debaixo da subserviência a Costello.

Para o Lego ficar mais interessante, Scorsese tem seus ajudantes. Nicholson é aquele pai que, longe de ajudar o filho, torna a brincadeira ainda mais difícil e desafiadora. Ele é o tempero para que o show de Damon e Dicaprio seja mais convincente. Quando Costello diz a um padre que “nessa diocese, Deus não comanda o bingo”, você sabe que só ele pode dizer aquilo. E a editora Thelma Schoonmaker é a mãe que não deixa o filho desanimar nem perder o ritmo do jogo – sua montagem não deixa o espectador piscar durante o filme.

É com essa linha de frente – e com um elenco de primeira, em que até Mark Wahlberg está afinado – que “Os infiltrados” brinca de policial para estudar personagens neuróticos e incomuns. Você pode até dizer que já viu algo do tipo. Mas há uma diferença: Scorsese.

Sem piadas. O maestro é Scorsese, mas o show é deles.

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