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Canto dos desvalidos na terra de Lampião

28.11.06

por Daniel Oliveira

Canta Maria

(Brasil, 2006)

Dir.: Francisco Ramalho Jr.
Elenco: Vanessa Giácomo, Marco Ricca, Edward Boggiss, José Wilker, Cécil Thiré

Princípio Ativo:
Ricca, Wilker, Giácomo & cia.

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Há dois meses, assisti a “L’enfer” (O inferno), último filme do diretor Danis Tanovic (vencedor do Oscar de filme estrangeiro por “Terra de ninguém”). É uma tragédia clássica: três irmãs e um trauma que fez da vida delas a situação-título. Tanovic fez do longa um ciclo claustrofóbico de angústia e maldição. E criou uma das cenas mais bonitas que vi recentemente, quando a bela atriz francesa Emannuele Béart divaga sobre a relação da trama com o mito grego de Medéia. Fazia tempo que não saía do cinema tão esgotado.

Tudo bem que o argumento é de Kieslowski e o trio de protagonistas é do primeiro escalão francês. Mas essa exaustão emocional de uma boa tragédia grega é exatamente o que falta em “Canta Maria” (achou que eu nunca ia chegar aqui? Pois eu não errei de filme, não. Fica tranqüilo).

E se um longa com esse nome não pode ser uma tragédia, saiba que ele é adaptado do livro “Os desvalidos”, de Francisco J. C. Dantas. E a Maria do título (a promissora Vanessa Giácomo) começa o filme viúva e segue marcada pela tragédia, em meio ao conflito entre o grupo de Lampião (José Wilker) e a “volante”, que o persegue. Ela perde os pais e se casa com Felipe (Marco Ricca), mas desperta o interesse de Coriolano (Edward Boggiss), sobrinho do marido, que mora com eles.

A técnica do diretor Francisco Ramalho Jr. tem ótimos momentos, como a seqüência inicial, em que a edição alterna entre Felipe, Maria e Coriolano, pré-estabelecendo a relação entre eles – ou mesmo na encenação do baile em que o “pedido de casamento” é feito. O diretor de fotografia Lúcio Kodato trabalha bem seus enquadramentos, como na cena em que Maria fica no escuro dentro da casa, enquanto vemos o “Felipe mascate” partir pela janela.

Com personagens complexos, o elenco está afinado, com destaque para Wilker, ameaçador como Lampião; e para o “Sean Penn brasileiro”, Marco Ricca, ao humanizar Felipe, que mal sabe se expressar. Mas a falha capital de “Canta Maria”, que o impede de ser um grande filme, é a falta de tensão.

A edição e a trilha, principalmente, não conseguem criar o crescente sexual necessário entre Maria e Coriolano. A música original opta por temas “felizes”, que cairiam bem em um romance de cordel, mas que não envolvem o espectador no universo trágico dos protagonistas. E a edição peca em momentos fundamentais, como na cena-clímax do final, quando um dos personagens morre e ela nem se dá ao trabalho de mostrar seu rosto.

O roteiro de Ramalho Jr. opta por ser “Canta Maria” demais e “Os desvalidos” de menos. O que não pode ser chamado de erro. Muito menos de tragédia. Mas podia ser melhor.

Não se confunda: é ela quem devia estar no meio dos dois.

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