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De 0 a 9, sem mudar muita coisa

05.12.06

por Daniel Oliveira

Damien Rice - 9

(Warner, 2006)

Top 3: “9 crimes”, “Rootless tree” e “Dogs”.

Princípio Ativo:
fossa, parte 2

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Confesso que quando escutei Damien Rice cantar que “se ele [o outro] não a enlouquece como eu, deixe-o por mim...antes que algum de nós dois tenha accidental babies”, não controlei a risada. Sério. A penúltima música do CD 9 é constrangedora como o vexame bêbado de “Cheers Darlin’”, do primeiro álbum. Mas, ao contrário desta última, que deixava um engasgo na garganta, “Accidental babies” parece uma série de perguntas exageradamente humilhantes.

É sinal do início do desgaste de uma fórmula. Rice continua chorando mágoas, sofrendo – e, ocasionalmente, gritando. O que não é novidade nenhuma: Jeff Buckley e Rufus Wainwright já faziam isso bem antes dele. Só que a tristeza e a fossa profundas de canções como “Delicate” e “Amie”, do CD anterior, eram de cortar o coração, tamanha a autenticidade com que o cantor solta a voz.

Você tinha certeza de que se levasse um fora, chegasse em casa e escutasse 0 duas vezes seguidas, poderia morrer de depressão. Já com 9, é difícil se animar para essa segunda rodada. O álbum começa bem com “9 crimes”, inesperadamente tensa e contida. Mas logo em seguida, Rice retorna com a apelação de gritos e arranjos de cordas em “Elephant”, que parece uma versão não tão inspirada de “Blower’s daughter”.

Não há como negar que esse drama todo soa mais do mesmo, por mais que o arsenal de letras de fossa do moço ainda seja admirável. 9 conquista nas músicas em que o bardo irlandês se arrisca, como na pesada – para os padrões do cantor – “Rootless tree”. Ou na leve e quase feliz “Dogs”, sobre uma “garota que faz ioga” e um “garoto que mora do lado de uma colina”. Quase porque, bem no final, Rice não perde a chance de chorar e dizer que “there’s no need for me” em todo aquele cenário bonito pintado na música. Admitamos: ele gosta de sofrer.

“Grey room” e “Sleep, don’t weep” passam longe de ser ruins, mas parecem sobras do outro álbum. No fim das contas, 9 é um bom CD em que a ausência da novidade de O – e a proliferação de genéricos de Rice - fazem letras como “oh, eu sei que eu te amo, então por favor solte o cabelo” de “Animals were gone” simplesmente uma rima forçada. Mas “pupilo em negação” também não era? Sem contar os momentos chatos, como a cansada e esgüelada “Me, my yoke and I”.

Mas frases como “time’s contagious, everybody’s getting old”, de “Coconut skins”, ainda te deixam morrendo de peninha dele. E aos detratores: segurem as quatro pedras. É impossível julgar uma música de Damien Rice antes de escutá-la ao fundo de uma cena com Natalie Portman andando em câmera lenta. Aí, tudo pode mudar.

Damien: ele pensou bem, diminuiu o álcool e parou de dar vexames em casamentos de ex-namoradas. É um avanço.

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