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A história (do branco) sem fim

09.04.05

por Daniel Oliveira

Casa de Areia

(Brasil, 2005)

Direção: Andrucha Waddington
Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Seu Jorge, Luiz Melodia, Emiliano Queiroz, Enrico Diaz, Stênio Garcia, Ruy Guerra

Princípio Ativo:
A Teoria da Relatividade

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Estamos acostumados com a idéia de que o espaço, um lugar qualquer, não se move - pelo menos a princípio – enquanto o tempo não pára, “andando” sempre para frente. Imagine uma situação em que ocorra o contrário: o espaço físico está em constante movimento e o tempo parece ter parado. É mais ou menos a proposta de “Casa de Areia”, de Andrucha Waddington (Eu, tu eles).

Mais ou menos – expressão não-jornalística e condenável – porque o dito acima tem a ver com a teoria da relatividade, que já é difícil de entender, quanto mais de explicar. É esse o desafio aceito pelo diretor ao contar a história de Áurea (Fernanda Torres), levada grávida pelo marido (Ruy Guerra) para os Lençóis Maranhenses em 1910, junto com a mãe, Maria (Fernanda Montenegro). Quando o homem da casa morre, elas são obrigadas a sobreviver no meio do nada, com a ajuda de estranhos, como Massú (Seu Jorge), sonhando em voltar para a cidade.

Waddington cria uma obra que subverte espaço e tempo – a areia (o espaço) nunca pára enquanto o tempo não parece passar, cortado o contato com a civilização. “Casa de areia” tem um ritmo lento, marcando a eternidade e a monotonia do dia-a-dia de suas protagonistas. A bela fotografia de Ricardo Della Rosa (Olga) acentua esse cenário com um branco infinito, onde “o que não é chão, é céu”, nas palavras de Áurea. Com características pouco comerciais, o diretor conta com a dupla de protagonistas para humanizar seu filme e é aí que ele tira a sorte grande. As Fernandas, mulher e sogra, dão um show, destacando que, no fim das contas, o filme é um drama simples de mulheres que querem seguir em frente.

Com um roteiro incrível de Elena Soárez (Eu, tu, eles), de poucos diálogos e poucas escorregadas, Waddington entrega uma obra de pura imagem e som, o melhor filme nacional dos últimos tempos. Não é um longa fácil, mas ao mesmo tempo é simples e objetivo: a imagem é tão soberana que, no único diálogo em que se tenta explicar a tal teoria da relatividade, ele soa bem menos claro que a mise en scène do diretor.

A história possibilita várias interpretações e leituras. Uma delas é a de que nem sempre seguir em frente (no tempo) implica mover-se (no espaço) – são diversas e inesperadas as formas de progredir. Talvez seja essa a teoria da relatividade, mas se não for, não importa. Importam, sim, as belas imagens do filme e as belas interpretações das Fernandas, especialmente quando suas personagens escutam música pela primeira vez, depois de muito tempo. Som e imagem, simplesmente: não é isso que é o cinema?

Áurea (presente) e Maria (futuro) vêem o passado no tempo relativo de Casa de Areia

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