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O afeto que se abre

11.01.07

por Rodrigo Campanella

O Passageiro – Segredos de Adulto

(Brasil, 2007)

Dir.: Flávio R. Tambelini
Elenco: Bernardo Marinho, Antônio Calloni, Carolina Ferraz, Giulia Gam, Luíza Mariani

Princípio Ativo:
um pé de sapato e um pé de moleque

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Ei Mariana Souto,

Você me perguntou aquele dia se eu costumo fazer anotações durante um filme. A resposta reapareceu hoje, saindo da penumbra de “O Passageiro – Segredos de Adulto”. (Não se impressione pelo subtítulo nacional ‘explicativo’ de meia tigela...)

Se tivesse respondido sim, que era um adepto da caneta-e-bloco na sala escura, teria entrado e saído desse “Passageiro” com a mesma quantidade de tinta na carga. Sem anotar um rabisco que fosse para evitar a branquidão.

Ainda assim, já tinha esse texto pronto. Sabia que com a caneta no papel o resto correria macio. Até porque o filme é exemplar daquilo que me fez abandonar de saída o hábito anotador: é um filme para se beber o afeto com que foi feito.

Em 2006, quando vi “Cafuné”, saí com a vontade de ter escrito eu a resenha do filme, mesmo sabendo que não poderia dizer nada que o texto original, do Igor, já não tivesse dito melhor. Com 2007 engatinhando, achei o “meu Cafuné”.

Na técnica (som, câmera, direção de atores...), “O Passageiro” é mais bem labutado (fantástica fotografia silenciosa do Pedro Farkas). Mas os dois se encontram no cerne: o mesmo Rio, o assombro diante da vida, a adolescência trôpega e um aperto que acaba esquentando o peito. De repente eu estava lá igual você na teia de Charlotte, um par de olhos embargados. Também não sei de onde veio.

Garanto que fatalmente tem algo a ver com um tal Bernardo Marinho, que vem a interpretar o Antônio, protagonista. O pai foi assassinado horas depois de uma briga daquelas com ele. E Antônio vai atrás de entender a vida por trás do que era aparente.

Mesmo cercado de gente afiada – Calloni, Giulia Gam muito bem, Carolina Ferraz muito Carolina Ferraz – é ele que encarna o espírito do filme e a fixação de quem assiste. Porque ele sou eu há dez anos, ele é os meus amigos, a minha namorada, ele provavelmente é você – e nessa ciranda todos fomos (seremos) Antônio.

Não é uma obra-prima artística. Nem eu queria que fosse. George Lucas disse que a gente vai ao cinema para ouvir música, mas eu vou às vezes é pra pensar na vida. E lembrar. Grande parte das vezes saio com uma saudade absurda de Godard e de como ele teria destruído um roteiro imbecil e feito uma bomba de efeito moral.

Dessa vez só lembrei que o cinema às vezes tem a propriedade de ser como as horas da vida, às vezes incertas, em que a gente olha para trás e parece que, afinal, deu tudo certo, por mais entortado. Propriedade que não é da vida em si, mas de quem olha. Sério, vá n’ “O Passageiro” logo que puder.

Abração,
Rodrigo

Antônio, Cristina e a surpresa de que, após Malhação, existe o mundo

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