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Ma che traste!

18.01.07

por Igor Costoli

O Crocodilo

(Il Caimano, Itália, 2006)

Dir.: Nanni Moretti
Elenco: Silvio Orlando, Margherita Buy, Jasmine Trinca, Elio De Capitani, Nanni Moretti

Princípio Ativo:
Orlando, Moretti e Berlusconi. Nessa ordem.

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Grande Campa, beleza?

Reli nossas últimas conversas, sobre O Céu de Suely. Pensando naquilo tudo, acabei fazendo um gancho com este italiano, O Crocodilo. A certa altura, um ator recusa o papel que lhe ofereceram porque ele achava que não era o momento da Itália ver um filme de tom político. Saiu-se dizendo que também já estava ocupado, que faria uma comédia.

- Então você acha que é o momento de se fazer uma comédia?
- Sempre é tempo de se fazer uma comédia.

Lembrei do filme do Karim, porque ele mostrou um Brasil muito honesto e sincero consigo. E escapou de uma armadilha cruel, que é a panfletagem contra a miséria e desesperança. N’O Céu, isso é cenário da história de muitos. No filme de Moretti acontece o mesmo, mas feito de outra maneira. Berlusconi aqui é apenas acidente na tragicômica história de Bruno Bonomo.

De repente, um falido produtor de filmes B (eu adoraria assistir a um longa que se chamasse “O Mocassim Assassino” ou “Machistas contra Freud”. E você?) assume ter votado em Berlusconi (ele, como o resto dos italianos), e só à medida que tem dificuldades de levantar grana pro filme é que vai se dando conta de duas coisas: que bobagem fez à época das eleições, e que besteira fez ao desistir de rodar um filme sobre Colombo pra se aventurar num roteiro que não percebeu ser biográfico.

Aliás, soberba a imaginação desse produtor quando se trata de imaginar o longa que fará. Aliás, Moretti se sai muito bem quando enquadra a crise de Bonomo, pessoal, familiar, profissional, amorosa, essa é sua especialidade, vide o premiado O Quarto do Filho. No desafio de fazer um filme sobre se fazer um filme, se perde um pouco às vezes, mas é sempre no magnífico protagonista que ele volta a dar unidade à película. Aliás, sabemos que sou suspeito pra avaliar personagens perdidos na vida, mas a indicação ao European Film Awards de Melhor Ator para Silvio Orlando não me deixa mentir.

Aliás, que moda ótima essa de filmes metalinguísticos! Sejam os que, como este Crocodilo, o fazem escancaradamente, sejam os que o fazem escondido, sem avisar o espectador.

Olha de novo aquele diálogo ali em cima. Quem pergunta é a autora do roteiro sobre o Caimano, como os italianos chamam seu ex-chefe de Estado, e então, o diálogo se explica. Sim, sempre é hora de se fazer uma comédia, mas o chefe já disse que é preciso escancarar a guerra antes de seguir adiante. Moretti fez isso através da piada e, vejam só: depois de todos os fracassos da produção, quem é que vem a interpretar Berlusconi no fim das contas? Pago a cerveja se você acertar.

Versão italiana do nosso "Boa Noite, Brasil!". Aliás, já pensaram o Leão presidente?

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