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O labirinto de Iñarritú

18.01.07

por Daniel Oliveira

Babel

(EUA/México, 2006)

Dir.: Alejandro Gonzáles Iñarritú
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael García Bernal, Adriana Barraza, Rinko Kikuchi, Boubker Ait Elcaid, Said Tarchani

Princípio Ativo:
Iñarritú

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O que você faz quando não conhece o limite entre certo e errado?

Yussef e Ahmed ganharam um rifle do pai para proteger o rebanho. Eles ouviram que a bala atinge até três quilômetros. Eles não têm certeza.

Depois de amarrar desencontros e sofrimento no México e nos EUA, o diretor Alejandro Gonzáles Iñarritú abraça três continentes. Pode ser demais, mas ele mantém o mesmo time dos filmes anteriores – diretor de fotografia, editores, compositor da trilha. Mas também não teria graça se fosse tudo igual, então ele arrisca quatro, e não três histórias.

O que você faz quando a única opção é a coisa errada?

Amelia é uma babá mexicana nos EUA. Ela não tem com quem deixar as crianças. Mas o casamento de seu filho é hoje. A poucas horas da fronteira.

Ao contrário, porém, do que acontecia em “21 gramas” – em que a técnica sumia num caos em que o espectador era convidado a sentir, e não intelectualizar – a narrativa de Iñarritú o trai em “Babel”. Apesar de belas transições (o melhor exemplo é o corte da galinha sangrando para o grito sangrento de Blanchett), a intercalação das histórias interrompe o envolvimento com as diferentes tramas, ao invés de potencializá-las.

O que você faz quando não há nada a fazer?

O casamento de Susan e Richard está em crise. Ela leva um tiro nas férias. Eles estão em uma vila perdida no meio do Marrocos. As ações de Richard não surtem efeito. Susan está em dor.

Não que isso torne “Babel” um filme ruim. A trilha de Gustavo Santaolalla é sublime ao amarrar as tramas. E, apesar do ritmo problemático e de pontos mal resolvidos – o vínculo da trama japonesa é forçado - o diretor mexicano continua com seu talento para traduzir em imagens as dificuldades dos relacionamentos humanos.

O que você faz quando o mundo em que você vive não parece seu?

Chieko é uma jovem surda-muda. Os hormônios da adolescência estão no auge. Mas ela não consegue se conectar com ninguém.

Iñarritú parece se demorar em situações e tramas que ele cria em função de uma única cena (e que cenas - a seqüência de Amelia e as crianças no deserto é desesperadora). E perde a chance de explorar os melhores arcos dramáticos – a criança que aprende o que é responsabilidade da pior maneira possível; e o casal que precisa reaprender a confiar e, literalmente, apoiar-se no outro.

Mas, à maneira do final de “Réquiem para um sonho”, “Babel” ilustra como, às vezes, é preciso perder algo – a inocência, as férias, um emprego, uma vida – para se ganhar conhecimento. E acredite: isso tudo, embalado pela trilha de Santaolalla, ainda vale o ingresso de 90% dos filmes que entram em cartaz anualmente.

Chieko: a solidão na cidade mais populosa do mundo na melhor atuação do filme, por Rinko Kikuchi

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