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Estudando Tom Zé

18.01.07

por Daniel Oliveira

Fabricando Tom Zé

(Brasil, 2006)

Dir.: Décio Matos Jr.
Depoimentos de: Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, David Byrne

Princípio Ativo:
Tom Zé

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Às vezes, é melhor ser abertamente apaixonado e deslumbrado, como “Meu encontro com Drew Barrymore”. Pelo menos, você não será vítima de críticas como a de um colega jornalista, que desmereceu “Fabricando Tom Zé” como o “famoso documentário de fã”.

Sim, o filme, com raras exceções, coloca Tom Zé em um pedestal acima dos meros mortais. Sim, ele o considera um gênio injustiçado. E sim, há longos planos do cantor fazendo suas invencionices...geniais...nos palcos de sua turnê européia em 2005. Com isso, o longa se salva porque não mente: gostando ou não, Tom Zé é um personagem muito interessante. E um músico de sonoridade ímpar.

O diretor Décio Matos Jr. é semi-burocrático, ao intercalar o registro da turnê acima com depoimentos dos envolvidos na mesma, de figuras centrais na carreira do cantor e jornalistas / críticos / conhecedores da sua obra. Perto da inovação que Tom Zé busca com sua música, nada mais convencional que “Fabricando Tom Zé”.

A câmera do diretor de fotografia Lula Carvalho (Incuráveis) movimenta-se muito bem, acompanhando o ritmo do músico baiano. E não deixa de ser interessante – mais para os leigos que para os conhecedores de Tom Zé – o resgate que Décio faz da trajetória do baiano: desde o estranho desencontro com os parceiros tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil (que culminou na sua eventual dissociação do movimento, por parte da imprensa), até a redescoberta nos anos 90, com o sucesso no exterior, principalmente.

Paralelo a isso, o documentário tenta – mas deixa escorregar na pieguice – falar dos “elementos que compõem Tom Zé”: a relação com a cidade-natal Irará, com a esposa, o posicionamento político, seu caráter quase ermitão e isolado do resto da MPB.

Décio se salva ao registrar o incidente no Festival de Montreux, na Suíça, em que Tom Zé bate de frente com a incompetência dos técnicos de som que, segundo ele, “talvez eles don’t like the style”. A seqüência é o mais perto que o diretor chega de captar a essência do baiano, um artista de extremo talento com um gênio que pode ser considerado intratável.

Essa discussão passa sutilmente pelos depoimentos de Caetano e Gil, que aclamam o conterrâneo, mas insinuam seu “isolamento” como o responsável pela separação entre Tom Zé e eles após o retorno do exílio. São esses lampejos de excelência que fazem de “Fabricando Tom Zé” algo que poderia ser, mas simplesmente se apóia em seu personagem central. Reconheça-se, ao menos, a escolha de Décio: ao ver Caetano e Gil transformados na piada de si mesmos hoje, Tom Zé pode ser um ermitão. Mas ainda é o mesmo grande músico de 40 anos atrás.

Tom Zé fabrica melhor do que é fabricado.

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