Busca

»»

Cadastro



»» enviar

O patriota vs. Maia remix

28.01.07

por Daniel Oliveira

Apocalypto

(EUA, 2006)

Dir.: Mel Gibson
Elenco: Rudy Youngblood, Dalia Hernandez, Jonathan Brewer, Morris Birdyellowhead, Israel Contreras, Itandehuy Gutierrez

Princípio Ativo:
S&M

receite essa matéria para um amigo

Mel Gibson não concorda muito com a teoria de que o cinema é elipse: o que não é mostrado tem muito mais impacto e importância do que o que é escancarado. Desde “Coração valente”, passando pelo mais que discutido “A paixão de Cristo”, o negócio do cara é mostrar tudo – e quanto mais visceral melhor.

Só que enquanto ele tinha um bom roteiro no primeiro exemplo, e uma história de apelo universal no segundo, neste “Apocalypto” só resta um fiapo de roteiro para o cineasta desfilar seu fetiche por sangue, tortura e violência. Guerreiro maia vê sua aldeia e sua família serem exterminadas por uma tribo inimiga, é capturado, torturado, consegue escapar e sai em busca de vingança. Você já viu isso em uns dois filmes com Gibson, só que aqui é temperado com frases de efeito da mesma profundidade de uma letra do Tihuana.

O fato de o filme ser falado em Yucatec – língua Maia da época em que se passa a história – é mero golpe de marketing, já que Gibson não parece muito preocupado com a cultura da civilização pré-colombiana. Pelo contrário, a escolha por retratar o ocaso dos Maias – com especial atenção para a barbárie, disputa, violência e desentendimento entre eles, realçando a “selvageria” – é bastante questionável e algo politicamente incorreta. Principalmente quando, no auge da correria sanguinária, os personagens se deparam com a chegada de caravelas européias – com um padre em destaque, óbvio.

O cineasta filma com prazer sadista e técnica impecável entranhas sendo arrancadas, membros esquartejados, lanças atravessando corpos e algozes regozijando ao torturar suas vítimas. Porém, a incompetência do roteiro (de Gibson, ao lado de Farhad Safinia) em criar personagens complexos e críveis – ao invés de arquétipos exagerados de “bons” e “maus” – transforma essas seqüências em simples shows de horror para chocar.

Existe violência gráfica como proposta estética, como catarse da trajetória de um personagem e como experiência sinestésica (Réquiem para um sonho). E existe a violência de Mel Gibson, carregada de preconceitos e sentimentos fundamentalistas de culpa cristã. A edição tem ritmo – que privilegia a ação em detrimento da atuação (estranho para um diretor que já foi ator) – , a fotografia funciona bem para o tom épico (apesar de já ter sido feita melhor por Terrence Malick) e a trilha sonora de James Horner casa cuidadosamente bem com os sons da floresta, os ritmos indígenas e os gritos de dor.

Mas essa excelência técnica toda só faz do cineasta um sadista com talento estético. E o sadista em Mel Gibson não encontra um masoquista em mim.

Precisa dele passar duas horas torturando alguém para você saber que esse cara é mau?

» leia/escreva comentários (10)