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Acerto doméstico

28.01.07

por Rodrigo Campanella

Uma mulher sob influência

(A woman under the influence, Estados Unidos, 1974)

Dir.: John Cassavetes
Elenco: Peter Falk, Gena Rowlands, Fred Draper, Lady Rowlands

Princípio Ativo:
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Legítima sessão de descarrego filmada em solo americano, “A Woman Under the Influence” é uma daquelas pequenas raridades que ensinam quanta coisa pode estar dentro de uma fantasia de “drama doméstico”. Um marido falta, por um serviço urgente, a um jantar romântico com a esposa já razoavelmente desregulada. Essa é a chave mínima para acionar uma série de explosões pessoais que irão se somar, uma após outra, como avalanche incontrolável.

Dá para imaginar quantas entidades espirituais dramáticas devem ter passado para dar uma força quando o filme estava sendo filmado, para alcançar um resultado tão inspirado. “Uma mulher...” poderia tranquilamente levar no cartaz a frase do diretor/ator teatral Amir Haddad, reclamando de quando alguém aparece para conversar quando ele está lá dentro do personagem: “A pior coisa que existe é você estar com a entidade no corpo e os outros insistirem em falar com o cavalo”.

Os cavalos nesse caso correspondem a Gena Rowlands, atriz, e Peter Falk, ator, cercados por uma porção de eqüinos igualmente competentes. Possivelmente nem com uma lupa é possível encontrar alguém atuando mal nesse filme, e o mérito pode ser creditado na caderneta de John Cassavetes, diretor.

A sinopse do filme é um filete, filmada integralmente dentro de uma casa e em uma pedreira. Essa simplicidade, necessidade de fazer render o orçamento pequeno, só faz crescer o tamanho das interpretações e a qualidade do diretor, culpado também pelo roteiro. Técnica é excelente, mas Cassavetes e a direção de fotografia dividida por Mitch Breit e Caleb Deschanel comprovam que nascer com um olho especial, aquela velha questão do talento, acrescenta bastante. Ao final, qualquer pensamento que você tenha sobre um filme que se diz “cru” ou “direto” está completamente alterado. Simples desse modo.

Fica a sensação de que é inútil dizer ou pensar coisas como “o que o diretor quis discutir com essa cena” ou “a simbologia escondida por trás desse plano” . Não que o filme não deva ser estudado (deve) ou decupado nos mínimos detalhes (deve também), mas Cassavetes filma como uma força da natureza rolando da tela para o meio do tronco de quem assiste, com a saudável mania de correr na frente da percepção do espectador, virar de frente e começar a chutar as canelas.

Poucas histórias filmadas conseguem tantos risos sinceros e nervosos misturados a uma agonia não cessa. Mas há um amor e uma compreensão guardados ali nas interpretações, e na mão que conduz a história, difíceis de encontrarem páreo. Tanto que em um certo momento, você percebe e sente mesmo a vontade de ter os olhos de Mabel, aquela mulher sem eixo, mas que guarda uma liberdade que naturalmente a vida cobra.

sob a influência

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