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O julgamento de Uganda

12.03.07

por Daniel Oliveira

O último rei da Escócia

(The last king of Scotland, Reino Unido, 2006)

Dir.: Kevin Macdonald
Elenco: James McAvoy, Forest Whitaker, Kerry Washington, Gillian Anderson, Simon McBurney, David Oyelowo

Princípio Ativo:
condenação suspeita

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Alguns filmes panfletam. Outros revisam. Há aqueles que buscam entender. “O último rei da Escócia” não tem condescendência nenhuma ao condenar. Seu “relato de viagem” do médico escocês Nicholas Garrigan (James McAvoy), que vai à Uganda nos anos 70 em busca de “aventura e emoção”, é uma sentença à atitude do primeiro mundo – e, em especial, da Europa – em relação à África no século passado.

O ditador Idi Amin (Whitaker) pergunta a Garrigan se ele é só mais um europeu que foi para a África “trepar e saquear”. E, bem, ele é. No início, há a sua disposição e preocupação em trabalhar com tribos de Uganda que ainda acreditam em curandeiros. Mas ele não pensa muito ao abandonar o desconforto da empreitada e abraçar o luxo de casas e carros de primeira, oferecidos pelo ditador ao propor que Garrigan se torne seu médico pessoal. Qualquer semelhança com o assistencialismo corruptível e politiqueiro não é mera coincidência.

Enquanto abusa da boa vida e do sexo fetichizado com mulheres negras, o escocês demora em descobrir os podres do regime de Amin. E demora é, definitivamente, o mal de que padece o longa do diretor Kevin Macdonald. A espera de 30 anos para retratar o que aconteceu em Uganda torna a idílica primeira metade do filme arrastada e irreal demais, fazendo de Garrigan não um ingênuo, mas um bon vivant comodista.

A fotografia limpinha e correta de Anthony Dod Mantle, a ótima trilha musical setentista e o insistente sorriso publicitário de McAvoy ao final de suas cenas gastam muita criatividade e película em algo que o espectador está cansado de saber que não é verdade. Como proposta, é um reforço que irrita e só deixa mais impressionante o minimalismo de Whitaker. O ator sabe que, em cinema, menos é mais – o charme de seu Amin é sutil, seu humor não vem de gags, mas de uma familiaridade bonachona com a agressividade muito bem mascarada.

Com pouco mais de 30 minutos em cena, Whitaker não é só um coadjuvante que roubou o Oscar de melhor ator. Auxiliado pela deficiência do roteiro e da direção em condenarem menos e aprofundarem mais Garrigan, ele tornou os atos de Idi Amin – um genocida que matou mais de 300 mil ugandenses – mais legítimos que o médico protagonista.

Seria um revisionismo ousado, já que as atrocidades ocorridas na África são, em grande parte, resultado da divisão arbitrária do continente feita por europeus no século passado. Seria, se o roteiro não corresse no final em encontrar uma redenção para Garrigan. Com isso, “O último rei da Escócia” se torna uma condenação pouco efetiva em suas implicações políticas e aquém do que poderia ser em seus méritos fílmicos.

Sim, geeks, aquela ali no fundo é a Agente Scully.

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