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4 transas cinematográficas, 1 conversa batida e 1 camisinha furada

17.05.07

por Daniel Oliveira

Na cama

(En la cama, Chile/Alemanha, 2005)

Dir.: Matías Bize
Elenco: Blanca Lewin, Gonzalo Valenzuela

Princípio Ativo:
sexo, cinema e clichês

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Fim da primeira transa. O público faz cara de sem-graça, pede licença para entrar e pergunta se o filme pode começar. Ofegantes, os personagens se olham com aquela cara...”qual é o seu nome mesmo?”

Os cinco maiores desejos de um jovem-cinéfilo-pretenso-cineasta: 1- Fazer um filme em que seu alter-ego passe a noite com uma bela desconhecida, fazendo sexo descompromissado e elaborando teorias sobre cinema e cultura pop (sério: é um clichê meio absurdo, que a gente deixa passar porque costuma ser divertido, mas que tipo de dois estranhos olham um para o outro e começam a discutir desenho animado dos anos 80 e a relação entre “Alta fidelidade” e “Magnólia” em uma cama de motel?).

Fim do segundo round. Ele olha para ela com cara de... “que tal mais uma?” Ela não vê. Ela olha para ele com cara de... “que tal mais uma?” Ele não vê. Eles se olham...

2- O sexo não é só sexo, ele é edição. É ritmo. É montagem. Porque cinema é montagem e cinema pode gerar tanto prazer quanto sexo. (Pelo menos, para um jovem-cinéfilo-pretenso-cineasta). A disposição dos espelhos na parede mostra fragmentos separados dos personagens porque o público os conhece (e eles se conhecem) aos pedaços. Cinema, linguagem, sacou?

Fim do terceiro round. Tempo (um pouco de verossimilhança é bom: nenhum homem consegue tantas assim em seguida). Ele tem um All Star vermelho e uma camiseta verde. Ele é cool. Ela dubla uma cantora pop chilena à la Kelly Key e interpreta a coreografia. Ela é muito cool.

3- A atriz que faz a desconhecida deve ser bela, charmosa, inteligente e (nas palavras do próprio filme) peituda.

Fim do quarto round. A camisinha estava furada. Período fértil. Troca de farpas. Fodeu (com o perdão do trocadilho).

4- O ator que faz o alter ego deve ser, no mínimo, simpático – de preferência, gatão.

***Intervalo comercial: Celular só atrapalha e sempre toca na hora errada!!! Desligue-o quando for fazer sexo descompromissado com um estranho no motel.***

Sem mais sexo. Hora do filme ficar sério, dos personagens discutirem a relação, exporem seus traumas, mostrarem-se frágeis, profundos e surpreendentes (pero no mucho). A amenidade da primeira parte, com seus diálogos forçados em alguns momentos, é abandonada em nome de um tom mais dramático. A atuação de Blanca Lewin e Gonzalo Valenzuela melhora, mas a criatividade continua passando longe dos diálogos.

5- Por último, o filme deve percorrer o circuito dos festivais e ganhar pelo menos em um deles - no caso de “Na cama”, em Viña del Mar, Havana, Cartagena e Montevidéu. O que, convenhamos, não é nada mau para um jovem-cinéfilo-pretenso-cineasta.

Vou poupá-los do “Foi bom pra você?”. Ou não.

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