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À Procura de um Dilema

08.06.07

por Rodrigo Campanella

Lady Vingança

(Chinjeolhan Geumjasshi / Sympathy for Lady Vengeance, Coréia do Sul, 2005)

Dir.: Park Chan-Wook
Elenco: Lee Yeoang-Ae, Choi Min-Sik, Kim Byeong-Ok, Kwon Yea-Young

Princípio Ativo:
um prato requentado

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Cinco ingredientes para entender porque a vingança dificilmente cumpre o que promete:

1. “Old Boy” (de Park Chan Wook, 2003)

era um senhor melodrama. Se puder, reveja: aquele vilão, aquela transa e a tragédia no passado são melodramáticos no talo. O espetáculo era usar essa estrutura e fazer um filme que transpirava garra, visceralidade, imaginação visual. Com grandes atores e uma história revelada gota a gota, “Old Boy” deixava de ser um conto sobre a vingança para virar um drama. Seu dilema era manejar uma tragédia que nasce da inocência.

2. “Lady Vingança”

é o filme que segue “Old Boy” e completa a “trilogia da vingança” do diretor Park Chan-Wook. A dificuldade aqui é saltar o muro de clichês que imprensa o melodrama – termo, inclusive, criado para falar de um teatro sentimentalista que usa vilões muito maus e heróis bonzinhos demais para um público que não seria “culturalmente sofisticado”.

Ainda que a própria “Lady Vingança” não seja um modelo de virtude, nem de mocinha, a mão do diretor pesa nos personagens criados para esse último filme. A história de Lee Geum-Ja, garota caridosa que assume um assassinato brutal no lugar do amante e ganha 13 anos de prisão para planejar a revanche tem narração fragmentada e afetada. Mas por baixo do sentimentalismo, falta um dilema.

3. “Ironweed” (de Hector Babenco, 1987)

não existe em dvd no Brasil, mas passa às vezes na tv fechada. É o primeiro longa de Babenco em Hollywood, com Jack Nicholson, Meryl Streep e bom orçamento. Mas é um melodrama sem concessão a panos quentes. É um filme seco, que raspa na garganta, sobre um fato simples: não importa que tragédia se apresente, a vida vai seguir.

4. “O Arco” (de Kim-Ki-Duk, 2005)

é o filme que está mais próximo do que seria saudável de “Lady Vingança”. Park Chan-Wook continua filmando a desgraça em imagens tão bonitas quanto bem pensadas, só que em “Lady” a montagem parece tentar bombar importância e profundidade numa história que não tinha isso. O que seria peso vira afetação. E uma fila no banquinho para esperar a vez de torturar, acaba tendo o gosto da vingança nunca satisfeita: o de comer um saco plástico, amargo mas vazio.

5. “Trainspotting” (Danny Boyle, 1996),

por fim, vem à cabeça quando “Lady” apresenta seu melhor: a liberdade visual. O palco reto do realismo é quebrado, os fantasmas aparecem, a imagem vira uma ficha de informação, uma mãe e uma filha acertam suas histórias usando a boca de um assassino. E por isso, e apesar de tudo, “Lady Vingança” é uma das boas opções em cartaz.

Geum-Ja reza para acertar no alvo

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