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A regra, o clichê o erro e o crime

23.08.07

por Daniel Oliveira

Espíritos 2 – Você nunca está sozinho

(Faet, Tailândia, 2007)

Dir.: Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom
Elenco: Marsha Wathanapanitch, Withaya Wasukraipaisan, Ratchanu Boonchuduang

Princípio Ativo:
terror oriental enlatado

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No terror, tudo começa com as regras. Normalmente, são umas três. Era assim com os zumbis dos anos 70, os serial killers dos 80 e os adolescentes nos 90. Com o terror oriental dos anos 00, não é diferente. Há sempre um duplo envolvendo duas mulheres – a mãe boa e a má; a criança feliz e a maltratada; a namorada bonita e a garota-celofane ignorada.

Em “Espíritos 2 – Você nunca está sozinho”, é a gêmea boa e a má. Como é terror, elas calham de ser siamesas. O duplo tem sempre uma representação visual - fotos, reflexos na janela, o espelho - onde o lado mau se materializa para assombrar o bom. “Espíritos 2” gosta mais dos dois últimos, constantemente lembrando a protagonista Pim da morte da irmã Ploy, durante a separação das duas.

Outras regras incluiriam a fotografia azulada para que quando o vermelho surja, seja somente no sangue, tornando-o ainda mais chocante. E a reviravolta lá pela metade, que mistura traumas da protagonista com a assombração misteriosa. Em “Espíritos 2”, é essa reviravolta que salva o filme do total marasmo.

Com o tempo, as regras viram clichês. Por aí, eles já são uns cinco. No filme tailandês, o mais gritante é a casa assombrada. Típica do terror oriental, é onde o espírito fica mais soltinho e apronta das suas. Além dela, há a jornada para descobrir o que a tal Ploy quer e porque assombra a irmã. E um namorado para ajudar a mocinha nisso. Talvez ele vá pro saco.

Os produtores não sabem a hora de parar. E, depois dela, os clichês viram erros. E erros, claro, são sempre sete. O mais clássico será sempre aquele dos anos 90, em que a mocinha nunca sai pela porta – ela sobe a escada. Aqui, os flashbacks para ajudar a entender a trama são os piores: óbvios e com uma trilha mela-cueca que, no quesito áudio, só não irrita mais que o outro erro. Que vem a ser o sobe som repentino para causar susto – provavelmente, só vão parar com isso quando um tímpano ou uma caixa de som for estourado. O que não está longe.

Só que chega um ponto em que os erros viram crimes. Damien Rice diria que crimes andam em 9. O mais absurdo deles é que o longa NÃO É uma continuação daquele “Espíritos” das fotos. Só tem os mesmos diretores. Diriam que a preguiça marqueteira da distribuidora é um pecado. Pense nos milhões de bolsos que sofrerão o golpe. É um crime. E coroando, outro crime, que não deixa de ser engraçado: o especialista, recorrente no terror oriental, buscado pela protagonista para entender seus demônios. Aqui, ele é um psiquiatra que diz: “Ela é psicótica. Mas tem cura. É só levá-la de volta para a Coréia”. Seria cômico, se não fosse criminosamente assustador.

Mais pílulas:
- Crítica de O grito e O grito 2
- Crítica de O chamado 2
- Crítica de Água negra

A atriz Marsha Wathanapanitch. Agora, diga o nome dela três vezes seguidas.

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