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Janelas

30.08.07

por Daniel Oliveira

Paranóia

(Disturbia, EUA, 2007)

Dir.: D. J. Caruso
Elenco: Shia LaBeouf, Sarah Roemer, Carrie-Anne Moss, David Morse. Aaron Yoo

Princípio Ativo:
Shia LaBeouf

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Há mais de 50 anos, quando estreava “Janela indiscreta” de Hitchcock, inspiração clara deste “Paranóia”, cinema era uma coisa de gente grande. As pessoas ainda bebiam e fumavam em cena – elas não tomavam ‘refrigerante’ quando pescavam, como no início do longa de D. J. Caruso; o público, em sua maior parte, já não tinha espinhas na cara; e o bem não necessariamente prevalecia no final.

Hoje em dia, cinema, ou pelo menos 90% do hollywoodiano, é coisa para adolescentes. Sinal dos tempos: na década de 50, James Stewart representava o ideal etéreo e imortal que é o ‘americano médio’. Três décadas depois, esse ideal rejuvenesceria com um ascendente Tom Hanks. Hoje, quem vai assumindo o papel é Shia LaBeouf, com seu ritmo insano de sitcom ao falar, sua insegurança charmosa e sua falta de jeito tipicamente...adolescente.

É ele quem salva da mediocridade esse mezzo thriller mezzo filme de amadurecimento, como Kale, um garoto que perde o pai durante um acidente de carro, torna-se um problema no colégio e acaba em prisão domiciliar durante as férias de verão. Sem nada para fazer – Xbox e iTunes cortados pela mãe – ele começa a espionar os vizinhos e desconfiar de que um deles pode ser um assassino procurado nos noticiários.

Se “Janela“ era uma metáfora do cinema e seu espectador, “Paranóia” brinca mais com a TV e o zapping frenético. Em cada janela de sua casa, Kale tem um vizinho e uma história diferente, em horários simultâneos ou não, e pode mudar sempre que se entediar com uma delas.

“Paranóia” é mais interessante na metade inicial, em que o protagonista conhece a nova vizinha Ashley (Sarah Roemer) e se apaixona. No impasse entre investigar o assassino e investir no romance, o filme explora a veia cômica de LaBeouf e constrói seu paralelo mais interessante com “Janela”. Assim como no longa de Hitchcock, há uma certa expiação de pecados: o vizinho serial killer se torna a projeção futura do que Kale pode vir a ser, caso não supere a morte do pai e a raiva desencadeada por ela.

A segunda metade, porém, perde um pouco o charme. A direção não apresenta nada de novo nas seqüências de perseguição e suspense – que não são ruins, mas você já viu antes. O roteiro perde a chance de explorar a relação entre o acidente, a perda de Kale e o vizinho suspeito, que tornaria o protagonista e a trama ainda mais interessantes. Prefere, em vez disso, investir na correria óbvia do gênero e nos discursos vilanescos bondianos, tornando um filme que poderia ser ótima diversão em um simples vôo solo de Shia LaBeouf. E, adolescente ou não, o menino é bom, viu?

Mais pílulas:
Vôo noturno, do mesmo roteirista Carl Ellsworth
Clássicos na prateleira: Psicose

Foi mal aí, meninas, ele pode ser engraçadinho. Mas ela é de parar o trânsito.

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