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Os pares difíceis

31.08.07

por Rodrigo Campanella

Medos Privados em Lugares Públicos

(Coeurs, França/Itália, 2006)

Dir.: Alain Resnais
Elenco: Sabine Azéma, André Dussolier, Lambert Wilson, André Dussolier, Isabelle Carré

Princípio Ativo:
arquitetura da separação

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o orgulho e o preconceito

Quem escolher “Medos Privados em Lugares Públicos” para assistir pela primeira vez a um filme francês vai tomar um susto: o amor e o perdão não são somente aqueles módulos de cozinha pré-fabricados que o cinema americano vende. Talvez confirme junto, por alto, um preconceito: o de que no cinema francês todo mundo fala demais e isso pode ser bem entediante.

Mas “Medos Privados” deseja exatamente dar cansaço em quem assiste, arrancar da poltrona a posição confortável. Provavelmente não é o filme que você vai comentar no almoço com os amigos daqui vinte anos - e por isso mesmo é estranho perceber que depois de alguns dias ele ainda está aqui comigo, uma espécie de marcapasso descarregando melancolia no peito.

o romance no inferno

Se o diretor Alain Resnais fosse filmar o inferno ele não seria cor de sangue, mas em tom de gelo, cheio de liberdades, ao alcance da mão, que se desmancham quando alguém tenta pegar. É esse o lugar que ele filma em “Medos Privados”, pintando uma máscara de comédia romântica sobre uma ciranda de histórias das mais amarguradas e sem esperança que dá pra contar.

Daí os personagens que falam e falam, tomam decisões pela metade, esquecem de perguntar o principal. Se quem assiste fica sem conforto é porque eles, ali na tela, estão queimando em fogo baixo, fervidos no meio de um doce em compota. No meio da risada sem culpa vem o baque de que a proximidade que surge nunca vai atar as pontas, e a tranqüilidade só vai chegar com um saldo de morte.

os medos públicos dentro do armário

O corretor de imóveis cinquentão é tratado como menino pela irmã mais nova, que tenta encontrar um amor entre os classificados sentimentais do jornal. O ex-militar descarrega na convivência com a mulher a frustração de uma vida talhada, e vai passar as tardes acompanhado de um escocês, líquido e sem gelo, e do barman que guarda em casa um pai quase senil e entupido de raiva.

Resnais filma cada um deles em um cenário fechado e econômico, lembrando que “Medos Privados” antes foi peça de teatro. E existe algo de teatral ali que incomoda, na sensação de um punhado solto de esquetes que parece esconder as cartas na manga, só se revelando todo na ótima seqüência final, fotografando o jogo de sombras no mesmo porta-retrato da falsa doçura. Até ali, a grande maestria está em usar a arquitetura do cenário e da câmera para compor cada cena, cuidando de contar que as divisórias são tão frágeis quanto uma cortina de fuxicos – o que não impede que elas sejam usadas como a parede mais forte que há de existir.

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