Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Acerola e Laranjinha – Uma amizade para dois

02.09.07

por Daniel Oliveira

Cidade dos homens

(Brasil, 2007)

Dir.: Paulo Morelli
Elenco: Darlan Cunha, Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Rodrigo dos Santos, Camila Monteiro, Naimá Silva

Princípio Ativo:
Escolhas

receite essa matéria para um amigo

“Eu não tive escolha”

Com sete anos de tela (grande e pequena), quase duas décadas de favela e um milhão de coisas ainda por aprender, Acerola e Laranjinha sabem que a frase acima, dita pelo pai de um deles, não é verdade. Sempre há uma escolha. E com os 18 anos chegando, elas não se tornam mais fáceis.

Pelo contrário.

E nem sempre a gente toma a decisão certa.

Pelo contrário.

Só que em “Cidade dos homens”, o filme, eles descobrem que, se é difícil fazer escolhas e cometer erros, é bem pior quando as escolhas e os erros são feitos pela gente. Como disse Denny Duquette (um cara que não existe, mas devia existir), “erros são dolorosos, mas são a única maneira de descobrir quem nós realmente somos”. E é isso que os dois amigos querem: definir quem eles são.

O diretor Paulo Morelli faz a feliz – escolha – de privilegiar o desenvolvimento de personagens, deixando a ação desenfreada de “Cidade de Deus” em segundo plano – mas não menos vigorosa. No filme, Acerola e Laranjinha se deparam com um tal ‘mundo adulto’, bem mais assustador que o mundo da favela, que eles aprenderam a domar nos últimos sete anos.

Se com a idade vêm o sexo, a moto, um dinheirinho, vem também um monte de responsabilidades. E na favela, responsabilidade + escolha = a decisão entre encarar uma arma de frente ou segurá-la por trás. O que significa, muitas vezes, tomar um lado quando dois bandidões resolvem iniciar uma guerra pela boca. E mais: fazer isso enquanto tenta desvendar quem é o pai, cuidar do filho de dois anos e manter um emprego decente.

Crescer não é fácil.

Pelo contrário.

Que o digam Acerola e Laranjinha. O filme deles começa com uma luz estourando de um sol carioca de 40º, que convida para um banho de mar. Só que até uma praia se mostra algo complicado. A longa descida para o mar revela a distância entre o morro e o ‘Rio Paraíso’ – e também aquela entre a vida de Acerola e Laranjinha até então, ali dentro, na favela, e aquela um pouco mais ampla e complexa que espera por eles lá fora, no tal ‘mundo’.

“Cidade dos homens” vai escurecendo cada vez mais na fotografia de Adriano Goldman. Outra metáfora do amadurecimento, em que as ilusões vão se perdendo, assim como a inocência malandra de Acerola, o pai idealizado de Laranjinha e todos aqueles sonhos que a vida adulta sepulta cruelmente em todos nós. No caso dos dois protagonistas, eles encontram algo fundamental para lidar com isso tudo: a amizade um do outro. E o filme acerta ao ser essa bela história de amor entre dois amigos – Acerola e Laranjinha podem não saber quem são sozinhos, mas juntos eles dão um jeito.

Mais pílulas:
Os infiltrados
Cão sem dono
Meninos de Deus
Meu tio matou um cara

Sabe família que você escolhe e família que você não escolhe?

» leia/escreva comentários (4)