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The life pursuit

19.09.07

por Rodrigo Campanella

As Leis de Família

(Derecho de Familia, Argentina/Itália/Espanha/França, 2006)

Dir.: Daniel Burman
Elenco: Daniel Hendler, Arturo Goetz, Julieta Díaz, Eloy Burman, Adriana Aizemberg

Princípio Ativo:
geração

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Ariel Perelman tem algo como trinta anos. Podia ter quinze, vinte, um quarto de século. Tem um pai, que ele não quer imitar porque provavelmente já tentou e não deu certo. Divide uma casa com a mulher e o filho, enquanto aprende a trancos suaves a diferença entre compartilhar um cômodo e ser marido & pai. Trabalha como defensor público e professor. Não é um gigante intelectual, um certinho convicto ou boa-praça exemplar. Pode até ser uma coisa dessas às vezes, mas isso não interessa ao diretor Daniel Burman, que também fez o roteiro. Ariel Perelman tem somente a medida exata de um homem, boca meio embasbacada enquanto o mundo se descortina.

Dá trabalho chegar a fazer um filme desses. E leva tempo.

Cortar as gorduras da história, ver com bom humor, descobrir que um filme honesto não traz paz mas uma outra espécie de alívio – isso não é fácil. O roteiro arranja trinta tardes de pernas pro ar para Ariel, quando seu prédio de trabalho é interditado sob risco de desabamento. Nessas horas livres, sem a desculpa da mesa atulhada de papéis, sobra para ele enxergar e abraçar a nova (e confusa, para ele) transição – um dia filho, hoje pai.

Ariel Perelman é a continuação adulta daquele menino de cabelos loiro-espetados que tinha um tigre chamado Haroldo. Carrega um pacote de mordacidade no bolso, usado em doses homeopáticas. É já um homem, mas vê um meio menino no espelho. E entre Ariel e seu filho de dois anos e meio, é óbvio que o garotinho está mais preparado para a vida do que ele – como Calvin talvez estivesse mais bem-preparado que qualquer um.

Os protagonistas dos filmes de Burman costumam carregar o mesmo primeiro nome: Ariel.

E a sorte de Ariel é ter nascido em um cinema - o argentino – onde a classe média que dirige os filmes atuais costuma retratar dilemas humanos com uma honestidade íntima, filmando o universo da própria classe mais ou menos média. E tece essas tramas num fio que alinha gêneros distintos – como nesse drama que tranquilamente pode ser dito comédia.

O ótimo Daniel Hendler, que dá vida a Ariel Perelman, tem sério risco de ser o protagonista de um filme profundamente geracional. Seu Perelman provavelmente nasceu nos mesmos anos que “Mãos de Cavalo”, o velho menino que dá nome ao livro de Daniel Galera. Se um e outro forem isso mesmo, violentamente geracionais, é uma qualidade que pode render cadeira cativa no tempo. Mas as duas histórias, especialmente a de Ariel, são cortadas sob medida para quem consegue chorar com gosto. Boa parte das vezes, rindo junto. Sem essa possibilidade, deve ser chato pra caramba.

Mais pílulas:
O que você faria?
Herência
Cão Sem Dono
Nacido y Criado, em Gramado 2007

Ariel bem que tenta

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