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Confissão

28.09.07

por Daniel Oliveira

O homem que desafiou o diabo

(Brasil, 2007)

Dir.: Moacyr Góes
Elenco: Marcos Palmeira, Fernanda Paes Leme, Flávia Alessandra, Leandro Firmino da Hora, Lívia Falcão, Hélder Vasconcelos, Giselle Lima

Princípio Ativo:
Góes & Palmeira, a mesma dupla de Dom

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“Creio em Griffith-Pai Todo Poderoso, criador da película e da narrativa. E em Stanley Kubrick seu único Filho, Nosso Senhor, concebido pelo poder de Welles, nascido da Política de Autores, morto e sepultado.

Ó Griffith, arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido. Prometo, com a vossa graça, esforçar-me para não mais pecar. Kubrick, misericórdia. Eis os meus pecados.

Inveja
Em “O homem que desafiou o diabo”, quis ser Guel Arraes e errei feio. Nem com o próprio me produzindo, eu filmei algo que prestasse. Ao mexer com o gênero ‘filmes de sertão’, fiz até Glauber Rocha se revirar no túmulo.
Penitência: 20 “Deus e o diabo na Terra do Sol” e 30 “Os fuzis”.

Gula
Meu roteiro com Bráulio Tavares (Sai de baixo) não consegue amarrar um monte de episódios soltos e sem propósito e construir bem um personagem, que não o protagonista. Não soubemos adaptar a história de Nei Leandro de Castro e pegamos um pedaço-de-quase-tudo, sem saber explicitar nem como o tempo passa, nem onde quisemos chegar.
Penitência: 20 “Cidadão Kane” e 30 “2001: uma odisséia no espaço”

Luxúria
Escolhi as atrizes femininas pela beleza dos seios e não pelo talento. Fernanda Paes Leme esquece o sotaque nordestino quando fica nervosa e Giselle Lima estava até boa, mas foi abrir a boca e estragar tudo. Ainda fiz questão de uma cena com Marcos Palmeira sem roupa a cada dez minutos.
Penitência: 40 “O último tango em Paris” e 30 “O império dos sentidos”.

Preguiça
A fotografia de Jacques Cheuiche parece um monte de imagens tratadas com Photoshop 2.0. Ela alterna amarelos chapados horrorosos, como na primeira luta com o Diabo, azuis noturnos vergonhosos, como numa cena-chave ao final do longa, e reflexos na lente na seqüência do circo.
Penitência: 30 “A liberdade é azul” e 20 “Sonhos de Kurosawa”

Avareza
Não tive a decência nem de disfarçar a dublagem tosca do Otto (!) na luta dele com o Ojuara, personagem do Palmeira. E tentei disfarçar a minha falta de ritmo na direção botando música em quase todas as cenas. Não funcionou.
Penitência: 25 “Hiroshima, mon amour” e 45 “Pulp Fiction”.

Orgulho
A única coisa que presta no filme é a atuação do Leandro Firmino da Hora, que eu desperdiço, e do Marcos Palmeira, que é muito meu amigo e tenta salvar meus filmes. Mas eu não consigo. Mesmo.
Penitência: 50 vezes toda a filmografia de Brando.

Ira
Com isso, esgotei a paciência de milhares de espectadores, desperdicei o dinheiro alheio e despertei neles o ódio por toda e qualquer coisa relativa à cinema.
Penitência: 5 séculos sem chegar perto de uma câmera.

Desafiei o diabo. E perdi. Perdão, amém.

Moacyr Góes.”

Mais pílulas:
Gatão de meia idade
Sonhos e desejos
O coronel e o lobisomem
Casa de areia

Sem dó. O chute com certeza não doeu mais que os 100 minutos desse filme.

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