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La vie en rose vs. blues

10.10.07

por Daniel Oliveira

Piaf – um hino ao amor

(La môme, França/Reino Unido/Rep. Checa, 2007)

Dir.: Olivier Dahan
Elenco: Marion Cotillard, Sylvie Testud, Gerard Depardieu, Emmanuelle Seigner, Jean-Pierre Martins, Manon Chevallier, Pauline Burlet

Princípio Ativo:
Marion Cotillard

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Edith Piaf foi abandonada pela mãe, criada por um pai alcoólatra e frustrado, cresceu nas ruas sempre às beiras da prostituição, o único homem que amou de verdade morreu de forma trágica; sua saúde nunca foi boa – ainda criança, quase ficou cega - bebeu muito a vida toda e o reumatismo encurtou sua carreira quando ela tinha pouco mais de 40 anos.

Tudo que Piaf tinha era a voz. Perguntada pelo médico por que tomava dez injeções de bezetacil por dia sem receita, ela responde “Para calar meu corpo”. Tudo que Piaf tinha era a voz. a voz. E o que essa voz canalizava não era música, era dor – o resultado de uma vida em que tudo que ela amava lhe era tirado logo em seguida.

“Piaf – um hino ao amor” retrata isso em mais de duas horas de drama e sofrimento, embaladas pelas belas músicas da cantora. O que, por si só, já vale o ingresso, apesar do roteiro e da direção de Olivier Dahan (Rios vermelhos 2) não superarem o material excessivamente melodramático da história. Ao contrário de Piaf, que emocionava nos menores detalhes de sua performance, Dahan abraça despudoradamente as cenas mais óbvias e espreme cada mililitro de lágrima que possam render.

O que salva seu filme do fracasso, porém, responde pelo nome de Marion Cottilard. Sua atuação, cobrindo mais de 20 anos de vida da cantora, é algo assustador – daquelas que, quando o olhar da atriz surge na tela, você começa a acreditar em encarnação. É esse olhar, que equilibra a fragilidade de quem perdeu tudo com o temperamento instável de uma diva, o tradutor da arte da francesa para o filme. E a transformação física, junto à reprodução do andar reumático, não atrapalha.

Verdade seja dita, ela não está sozinha: Manon Chevallier e Pauline Burlet, que interpretam a jovem Edith, são também muito boas, denunciando a centralidade excessiva do filme na cantora. Os coadjuvantes se dividem entre os que são muito bons e os que são muito maus com Piaf, num maniqueísmo que se estende também à quase total ignorância de seus dois casamentos e às parcerias musicais.

A fotografia de Tetsuo Nagata expressa o infortúnio eterno de Piaf, filmando prioritariamente à noite e, quando de dia, sempre com tempo fechado, frio, deprimente. A montagem realiza boas transições de uma época da vida da cantora para outra, mas nunca justifica bem o vai-e-vem temporal. Parece que é só para maquiar a cara de especial da TV a cabo.

Falhas que “Um hino ao amor” supera ao contar a história de uma mulher que foi descoberta como cantora antes de ser tratada como gente. Alguém que encontrou o sucesso na música, enquanto a vida teimava no fracasso.

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E não, ela não se arrepende de nada.

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