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Noel – um hino desafinado

28.11.07

por Daniel Oliveira

Noel – O poeta da Vila

(Brasil, 2007)

Dir.: Ricardo Van Steen
Elenco: Rafael Raposo, Camila Pitanga, Flávio Bauraqui, Lidiane Borges, Paulo César Pereio, Jonathan Haagensen, Supla

Princípio Ativo:
música demais, cinema de menos

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Existem muitas formas de se retratar uma pessoa através da arte:

Você pode compor uma música sobre ela
como fazia Noel Rosa para suas musas. Não só o poeta e sambista conquistava mulheres com suas canções. Ele também criava verdadeiros hinos para carnavais e gafieiras, entoados até hoje, como o clássico Com que roupa?.

Você pode fazer um filme
Só que, com exceção da cena em que Noel emula o hino nacional e compõe o samba acima, “Noel – O poeta da Vila” falha em transformar a música do compositor em imagens – em cinema. A partir do estouro de Com que roupa?, o diretor Ricardo Van Steen se contenta com pedaços de uma obra de ficção – que poderia ser um filme – entremeados a cada cinco minutos por um número musical.

Nele, um ator com voz parecida à do intérprete original entoa um samba de Noel, com cara de “que maravilha, que beleza”, enquanto figurantes vestidos de boêmios dançam (com a mesma expressão). E o público supostamente é agradado com hora e meia de boa música. Melhor fazer algo à la “Vinícius” de uma vez.

Van Steen, estreando em longas, cai no erro dos enquadramentos inusitados, com plongées e ângulos que destacam linhas e traçados, quando, num filme do gênero, deveria estar mais preocupado com a atuação. É um ângulo desses que compromete o que devia ser uma das cenas mais dramáticas do longa, quando uma bolada interfere no destino de Noel. Além disso, o cineasta filma, repetidas vezes, um quadro parado por longos segundos antes de começar a cena. Sem muita justificativa, isso torna ainda mais gritante a pouco inspirada edição.

Você pode fazer uma caricatura
É o que, sem uma boa direção, o também estreante Rafael Raposo faz com o protagonista. Fixado em reproduzir as linhas tortas e esquisitas do rosto de Noel, o ator não consegue se aprofundar no gênio musical do sambista, como se o poeta simplesmente perdesse o brilho e se rendesse à tuberculose, que o matou com 26 anos, e aos desencontros amorosos.

Seu mérito está na tentativa de retratar o contraponto entre o desengonçado de Noel, sua voz fina e jeito branquelo no meio da boemia negra. Mas sua atuação se compromete frente à grande parte do elenco mal escalada, como a fraca Lidiane Borges no papel da esposa Lindaura; e Supla (!?) como Mário Lago (!?).

Você pode dar vida a ela
Salva-se Camila Pitanga, que ilumina a tela toda vez que aparece em cena. Encarnando Ceci, uma musa que quer ter vida própria, uma mulher apaixonada, mas independente, a atriz é o melhor do filme, seguida de longe por um apagado Jonathan Haagensen como Cartola. O que, convenhamos, é muito pouca para fazer jus ao legado de Noel Rosa.

Mais pílulas:
Fabricando Tom Zé
Piaf - um hino ao amor
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Noel, o filme: aqueles casos em que a musa se torna a grande artista.

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