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Um traficante pra chamar de meu

05.01.08

por Rodrigo Campanella

Meu nome não é Johnny

(Brasil, 2008)

Dir.: Mauro Lima
Elenco: Selton Mello, Cléo Pires, Júlia Lemmertz, Cássia Kiss, Eva Todor, Flávio Bauraqui

Princípio Ativo:
asfalto

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Há alguns anos, a Pirelli afirmava em propagandas que potência sem controle não era nada, junto da imagem de um pneu em forma de punho fechado. Bem, não é assim que as coisas são, necessariamente. “Meu nome não é Johnny” é um exemplo bem-acabado de que potência sem direção pode não ser exemplo de excelência, mas não é nada descartável.

A história de João Guilherme Estrella inicia com um carismático moleque de classe média, levado sem muita firmeza pelos pais, e chega a um traficante do asfalto, playboy deslumbrado com o bem-estar que o dinheiro compra, vendendo para quem tem tanto ou mais dinheiro que ele, até ser preso e virar notícia sensacionalista nos anos 90. Esse percurso é desenhado na tela deixando a impressão de que o filme está sendo pensado, gravado, montado e provavelmente revelado naquele exato momento. Por um lado, vigor. Por outro, sensação de desleixo.

Até onde se sabe, roteiros não surgem do ar e não basta acrescentar leite para que filmes em pó se encham de cenas. Toda história assume posições, ambigüidades, cria um jogo ou uma armadilha para o público – e se lança ao mundo para ser apreciada, contestada, tomada, confundida . Só que parte do cinema nacional parece correr para cima do muro e esse é o caso em tela. Desdobramentos do tráfico são inexplorados, o empenhado (tirando Cléo Pires) elenco de apoio faz praticamente figuração e, pior, a personalidade de Estrella é resumida a um garoto espertão e simpático caindo numa roubada. O lado cruel fica de fora: garoto mimado que caiu no conto de que a malandragem é a brazilian way of life, e só se safou, em boa parte, porque tinha berço de prata.

Se ainda assim o filme do diretor Mauro Lima lembra uma força bruta sem muita lapidação, boa parte da energia pode, uma vez mais, ser creditada no saldo (crescente) de Selton Melo, a quem o filme parece ter sido entregue com o comentário “faça o que você quiser”. E Melo leva o espetáculo nas costas , ainda que tanta responsabilidade em cima dele já comece a fazer o rosto do ator pesar demais por baixo dos personagens.

Da fotografia (Uli Burtin) à direção de arte (Cláudio Amaral Peixoto), “Meu nome...” é correto e com pulsação certa, sem deixar os anos 70 ou os 80 com cara de novela antiga da Globo. A história do classe média que vive seus pequenos luxos à base de tráfico nunca perdeu a atualidade, ainda que o jornal não dê. A impressão final é que foi o ator, e não o roteirista ou o diretor, que tentou trazer a lama negra e nacional dessa história para a tela. Trabalho excessivamente grande para um só alguém.

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