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De HC a FHC

06.01.08

por Rodrigo Ortega

CPM 22 - Cidade Cinza

(Universal, 2007)

Top 3: “Estranho no Espelho”, “Reais Amigos”, “Cidade cinza”.

Princípio Ativo:
Escolhas, provas e promessas

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Cidade Cinza parecia um sinal de que a geração do CPM 22 tivesse enfim descoberto o mundo além do seu umbigo. Pelo nome do disco e entrevistas com a banda, imaginei que eles tivessem enxergado na cidade pessoas e lugares além de seus quartos, eles mesmos e suas ingratas amadas. Não foi dessa vez: a primeira pessoa do singular ainda rege quase todos os verbos das canções. Mesmo assim, a tentativa de se livrar de alguma coisa que deu errado no passado aparece o tempo inteiro no disco. A choradeira romântica felizmente acabou, o que não deixa de ser um primeiro passo.

Nas letras, podemos achar pedidos de desculpas e promessas de mudança aos montes: “Estive longe mas voltei para abrir as portas que fechei no passado... não vou mais viver sem sentido dessa vez”. (“Escolhas, Provas e Promessas”); “Sei que é tarde pra te ver / pra compensar tudo que eu fiz” (“1000 Motivos”); “Eu não aguento mais / lugares cheios, pensamentos vazios”, (“Depois de Horas”); “Pra que dinheiro, se o que eu quero não tem preço?” (“Mais Rápido que as Lágrimas”).

Porém, frases arrependidas, guitarras mais pesadas e vocais mais nervosinhos não libertam a banda de sua culpa. Se estivessem mesmo arrependidos eles pagariam um punk bêbado para quebrar uma garrafa de pinga na cabeça do Rick Bonadio ou fariam rimas com o nome e o endereço dos donos de rádios jabazeiras. A "volta às origens" soa como o discurso político de um ex-militante de esquerda que passou para o lado de trás da mesa. Nesse sentido o CPM equivale a um FHC ou um PT.

As melodias ensolaradas que tanto grudaram nas rádios e na MTV são muitas vezes deixadas de lado no meio do falatório. Trechos bem acelerados seguidos por um refrão mais lento e forte, que lembram Dead Fish, aparecem na melhor faixa aqui, “Reais Amigos”. É um dos poucos momentos “otimistas” do disco, assim como “Nossa Música”, primeira música de trabalho.

Cidade Cinza é um sinal consciente de que as coisas não estão boas. Espremido entre festinhas coloridas, tanto do lado da Ivete quando da Lovefoxxx, o clima nublado e o abandono parcial da melodia resulta, pelo menos, em um álbum honesto e limpinho (no caso, isso significa sujinho).

A faixa-título, a mais estranha delas, fecha bem o disco: “Às quatro horas vejo a mesma cena que deveria ter não existido / porque ontem tudo me pareceu tão chato / Eu fico em São Paulo, na cidade cinza... Trânsito caótico, cidade hardcore”.

Mais do que conviver com jovens de classe média de moicanos e cuecas à mostra, Badauí teve que ir ao Faustão e frequentar festas de celebridades para saber o quão hardcore São Paulo e o Brasil podem ser hoje em dia.

Badauí cresceu

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