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O Diabo Usa Montblanc

09.01.08

por Rodrigo Ortega

O Suspeito

(Rendition, USA, 2007)

Dir.: Gavin Hood
Elenco: Reese Witherspoon, Jake Gyllenhaal, Meryl Streep, Omar Metwally, Peter Sarsgaard, Alan Arkin

Princípio Ativo:
Elenco

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O Suspeito é um remix de dois filmes meia-boca que, juntos, alcançam um resultado melhor do que uma simples adição. Conte comigo: jovem muçulmana busca o amor em sociedade marcada pela violência e fanatismo religioso + jovem norte-americano vive dilema em contato com suspeito de terrorismo sob tortura = zzzzzzzz... Porém, o velho drama da mulher islâmica e o novo drama da consciência norte-americana são amarrados aqui de maneira interessante.

O filme consegue escapar de um maniqueísmo simples (ocidente bom X oriente ruim, ou o contrário), mas acaba caindo em um maniqueísmo dobrado. Cada lado do mundo tem seus heróis sofredores de coração puro - o agente Douglas Freeman (Jake Gyllenhaal), do lado de cá, e a jovem Fatima Fawal (Zineb Oukach) do lado de lá - e vilões sem escrúpulo - a diretora do FBI Corine Withman (Meryl Streep) cá e o policial torturador Abasi Fawal (Yigal Naor) lá.

Essa estrutura previsível, porém, é atravessada por uma rede interessante de personagens: o suspeito Anwar e sua esposa Isabella El Ibrahimi (Omar Metwalli e Reese Witherspoon), o senador Hawkins e seu assistente Peter (Alan Arkin e Peter Sarsgaard), etc. A linha de relações casuais que dá a volta ao mundo tem traços menos forçados do que em Babel, por exemplo.

A questão da suspeita é usada de forma simples e eficiente. Serve tanto como uma crítica pontual - enquanto Gyllenhaal é um observador dos “métodos” de investigação, empresta seus olhos ao espectador para assistir a um documentário incômodo sobre o abuso do poder dos EUA - quanto como uma questão mais universal - a crença na inocência de Anwar e na legitimidade da tortura determina as ligações e os rompimentos na rede de personagens.

Jake Gillenhaal, após uma desnecessária cena sensual com uma mulher, provavelmente exigida pelo seu empresário para afastar os boatos de que ele seria gay, encarna o herói com dignidade. Reese Witherspoon convence em um papel mais sério do que lhe é de costume e até Alan Arkin nos convence que é um senador da república depois de cheirar todas do lado de sua neta Olive Hoover.

Mas é Meryl Streep quem salva o filme de ser um panfleto bobo. Depois de defender as revistas de moda, ela apóia os torturadores sem hesitar nem perder a pose. Confesso que, por alguns minutos do filme, fui a favor da tortura só para não ter que discordar de Meryl.

Douglas Freeman não tem medo do Sargento Pincel

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