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Orwell, Tartavosky, Exupery, Lennon, e Lilica

09.01.08

por Cedê Silva

Garoto cósmico

(Brasil, 2007)

Dir.: Alê Abreu
Vozes de: Raul Cortez, Márcio Seixas, Vanessa da Mata, Arnaldo Antunes

Princípio Ativo:
Boa bibliografia

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Uma megalópole futurista, formada por arranha-céus idênticos. Uma sociedade opressiva e completamente regulada, remetendo a um pesadelo orwelliano. Um planeta inteiramente povoado por crianças – imerso numa galáxia onde cada mundo tem sua função, como n’O Pequeno Príncipe. E uma seqüência com efeitos sonoros e cortes rápidos, mostrando atividades repetitivas, a la “Laboratório de Dexter”.

É inspiradíssimo assim que começa “Garoto Cósmico”, novo longa de animação brasileiro. Mas infelizmente o filme não satisfaz as expectativas desse início. Depois que os três protagonistas (interpretados por crianças de verdade, e não dubladores profissionais) fogem da fortaleza onde moram, tudo desbanca para mais um filme infantil.

O diretor Alê Abreu bebeu nas melhores fontes da animação. Duas cenas de escuridão são interrompidas por uma porta se abrindo, como na abertura de Doug. Outra sequência escura é narrada apenas pela expressão dos olhos dos personagens, como em Tiny Toon. O herói Giramundos (o falecido Raul Cortez, em empolgada atuação) e seu calhambeque parecem saídos de Yellow Submarine, e a missão é similar: salvar crianças da rotina imbecil e opressora do “Mundo da Programação”, de um modo de vida “tão fácil que não precisa nem pensar”, nas palavras do vilão do filme.

E, como em qualquer filme infantil, o melhor é o vilão – um estereotipado super-herói, Capitão Programação, na voz do inconfundível Márcio Seixas (narrador dos desenhos do Pateta, o Batman de “Volume 2”, e também o Sr. Incrível). Ocorre que, ao contrário das animações americanas como “Shrek” ou “Bee Movie”, as brasileiras se pretendem mais didáticas e querem deixar lições morais - caso de todas as cenas musicais de “Garoto Cósmico”. As canções são sobre diversidade, tolerância e respeito às diferenças e cabe ao Capitão deixar clara uma lição ainda mais importante: melhor do que tolerar é aprender a pensar.

Não explorar essa lição acaba sendo a única (e grande) falha do longa. Numa luta contra centenas de piranhas voadoras, metade do elenco se esconde como avestruz, e a outra metade alimenta as piranhas com chocolate. Qual a lição aí? Falta ao filme esclarecer que não basta trocar um guru pelo outro (o Capitão pelo Giramundos) - e que a tão prezada diversidade depende da afirmação do individualismo (e não egoísmo, vejam bem).

É pelas ótimas cenas iniciais, animação de qualidade, boas dublagens (exceto dos três protagonistas) e pela trilha que vale a pena levar a molecada para “Garoto Cósmico”. Para os mais velhos e sem filhos, é só desenho de criança.

Mais pílulas:
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A loja mágica de brinquedos
Desventuras em série

“O submarino amarelo tá meio velhinho. Veio o calhambeque azul, mesmo.”

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