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O código de Hosseini

18.01.08

por Daniel Oliveira

O caçador de pipas

(The kite runner, EUA, 2007)

Dir.: Marc Forster
Elenco: Khalid Abdalla, Homayoun Ershadi, Zekeria Ebrahimi, Ahmad Khan Mahmidzada, Shaun Toub, Atossa Leoni

Princípio Ativo:
o best seller de Khaled Hosseini

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Mesmo em produtos literários bastante distintos, os protagonistas de “O caçador de pipas” e “Desejo e Reparação”, ambos escritores, buscam algo bastante parecido: o exorcismo dos fantasmas que os assombram desde a infância, através do ajuste de erros que cometeram no passado.

E, para seu azar, o filme derivado do best-seller de Khaled Hosseini estréia no Brasil uma semana depois da adaptação do livro de Ian McEwan - e leva uma surra feia. E isso não se deve nem à distância entre os méritos literários de cada obra. A história do afegão Amir (Abdalla), refugiado com o pai nos EUA após a invasão soviética no seu país-natal, poderia render um ótimo melodrama. Sem muita complexidade, mas com qualidades e um mínimo de inventividade dentro do gênero – como o próprio diretor Marc Forster já havia feito em “Em busca da Terra do Nunca”.

Só que, em vez de aplicar sua visualidade aguçada e traduzir a obra para o cinema, Forster parece se acanhar diante do monstro editorial de Hosseini. Assim como Ron Howard em “O código da Vinci”, ele se limita a encenar burocraticamente a trama do livro, em que Amir é obrigado a voltar ao Afeganistão em 2000 e se confrontar com os desdobramentos de crimes que cometeu e/ou assistiu quando criança. Mesmo assim, quando o filme deveria alcançar o clímax desse conflito na cena em que Amir é espancado, o cineasta não consegue transmitir a tensão necessária. Ele desperdiça a ótima trilha sonora de Alberto Iglesias e deixa a sensação de que o protagonista não chegou a correr nenhum risco real.

A melhor parte do longa é, sem dúvida, o flashback em que Amir lembra da infância e da amizade com Hassan, filho de seu empregado. Aí, “O caçador de pipas” pode se apoiar no carisma de seu elenco mirim não-profissional, os pequenos Zekeria Ebrahimi e Ahmad Khan Mahmidzada. O destaque é o primeiro que, assim como Saoirse Ronan, surpreende na ambigüidade de Amir: frágil e quase apático na sua postura de observador-escritor mas, na inconseqüência de uma criança, capaz de coisas terríveis para se livrar de fantasmas e culpas bem além do que sua maturidade permite compreender.

As cenas das pipas coloridas voando no céu de Cabul, metáfora da liberdade do país nos anos 70 – e que voltam posteriormente no filme quando Amir se sente ‘livre’ novamente – são, além de muito bonitas, o único lampejo de uma expressão cinematográfica de Forster. Bela casca de um filme esquecível, que simplesmente rende um par de imagens de divulgação para ilustrar o livro de Hosseini. Que é o que realmente será lembrado no futuro quando alguém disser “O caçador de pipas”.

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Run, Hassan, run!

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