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O outro sonho americano

25.01.08

por Igor Costoli

O Gângster

(American Gangster, EUA, 2007)

Dir.: Ridley Scott
Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Ted Levine, Josh Brolin, Chiwetel Ejiofor, RZA, Cuba Gooding Jr, Ruby Dee

Princípio Ativo:
Os três camaradas

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Há uma máxima que diz existirem filmes que são bons por tudo - e outros bons apesar de tudo. Somemos duas outras categorias: os longas que desapontam na diferença entre expectativa e resultado, e aqueles que após uma boa corrida entregam os pontos no trecho final. O Gângster freqüenta essas quatro categorias com imensa facilidade, dependendo do espectador.

“American Gangster” poderia se chamar “American Dream”, por contar a história real de um negro, motorista de um chefão criminoso, que virou o maior traficante da Nova York dos anos 70, superando as mafiosas famílias italianas no crime organizado. Frank Lucas veio de baixo e prosperou, a seu modo, na terra das oportunidades.

Ridley Scott dá uma aula, num filme feito por quem e para quem ama cinema. A narrativa é desenvolvida com calma, aprofundando os protagonistas ao mesmo tempo que personifica as personagens em volta. Com grandes atores à mão, constrói um jogo que vai virando com o passar do tempo. Impossível resistir à presença forte de Denzel Washington. Quando ele diz “meu camarada”, é do lado dele que você quer estar. E ficamos tão envolvidos com Lucas, que somente quando ele perde o controle lembramos que esse grande exemplo, chefe de família, é um assassino.

Em paralelo, o incorruptível detetive Roberts (Crowe) é um homem de aparência fraca. Essa dualidade é incômoda, antipática, diante do carisma de Lucas. Só quando sua vida pessoal desmorona e o vemos humano e baixo, é que podemos voltar a acreditar na sua figura, nas suas motivações. Essa é a escalada que inverte o jogo.

O filme está construído sobre a solidez das atuações, trazendo a veterana Ruby Dee, sensacional em curtas aparições que lhe valeram uma lembrança da Academia. Na direção de arte, é difícil imaginar favorito maior. Ao todo, o filme foi rodado em 152 locações, impecáveis reconstruções de Nova York, Vietnã e do Harlem. O figurino é outro espetáculo, e o filme parecer saído diretamente da virada entre os anos 60 e 70.

Mas nem tudo são flores, e é no ato final que Scott acaba vacilando – feio. Não é razoável que um filme de mais de duas horas e meia acabe de forma apressada. A velocidade com que a trama se desenvolve a partir de certo ponto – e seus desdobramentos – é quase falta de educação quando se compara com o resto do filme. Com censura 18 anos, e já com 157 minutos, o filme parece ter feito a pior das concessões. E Ridley Scott ficou a uns quinze ou vinte minutos de ter seu próprio “O Poderoso Chefão”.

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