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Obituário

30.01.08

por Igor Costoli

4 meses, 3 semanas e 2 dias

(4 luni, 3 saptamani si 2 zile, Romênia, 2007)

Dir.: Cristian Mungiu
Elenco: Anamaria Marinca, Luminita Gheorghiu, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov, Adi Carauleanu, Alex Potocean

Princípio Ativo:
Sobre coisas belas e sujas

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Ao final da projeção, você não sabe ainda o porquê, mas sente que 4 meses, 3 semanas e 2 dias ganhou merecidamente a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2007. Essa consciência é imediata. A resposta demora um pouco mais, mas ela virá, esteja certo. Duas universitárias dividem um quarto numa moradia estudantil, e o incômodo sensível no ar é a ansiedade de Gabita (Vasiliu), grávida. Sua amiga Otilia (Marinca) é quem está ao seu lado, para aquilo que elas decidem como solução.

O aborto ainda é proibido na Romênia, e não há uma única seqüência que deixe isso passar despercebido. Alugar o quarto de hotel, ir ao encontro do tal sr. Bebe (Ivanov), todas estas cenas possuem um componente de tensão crescente: algo está errado. Afinal, o que está em jogo? O tom de voz de Gabita entrega sua fragilidade, típica de quem reconhece que fez merda. Otilia reverbera uma outra nota, apesar de no mesmo volume. E o tal Bebe impõe o medo e o insólito apenas com a firmeza de suas palavras.

Mungiu faz dois trabalhos brilhantes - o estático e o movimento. Gabita aparece quase sempre inerte, física e emocionalmente, e é assim que a cena a acompanha. Otilia é sempre enquadrada em movimento vivo, pulsante, e as horas vão lhe conferindo cada vez menos luz para fazer o que precisa. A câmera a meia-altura coloca o espectador sentado a uma terceira cadeira, entre as personagens. Acompanhar de perto os diálogos faz deles ainda mais sinceros. Já os maravilhosos planos longos tornam-se a narração em off de Otilia, capazes de transmitir suas sensações, das ruas ao jantar na casa do namorado.

Um detalhe que parece invisível durante a projeção é, por isso mesmo, um dos mais fortes. O filme é parte de um projeto chamado “Relatos de uma era de Ouro”, que se pretende uma série de filmes sobre o comunismo no país, a exemplo do também elogiado “Como eu festejei o fim do mundo”. A ditadura quase inexiste em cena, mas as referências estão ali, como a procura por bens de consumo, como cigarros, ou a preocupação constante com o documento de identidade.

O mais injusto dos rótulos seria classificar o filme como pró ou anti-aborto. 4m3s2d está simplesmente acima disso, conseguindo ser, a um só tempo, ambos e nenhum. Ao permitir que todas as leituras pudessem ser feitas, o filme ganha o poder de acompanhar o espectador para fora da sala, afundando-lhe o peito e dando trabalho à mente.

E a última pergunta, aquela que vai permanecer, irá clareando com o tempo. Ela responde à angústia e ao medo com uma verdade cruel e irônica, o último ato de uma ópera cujo maior elemento é a culpa.

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Otilia, Gabita, e meu medo pelo que estava por vir...

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