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A madona, a rockstar e a virgem

15.02.08

por Daniel Oliveira

Elizabeth: a era de ouro

(Elizabeth: The golden age, Reino Unido/França/Alemanha, 2007)

Dir.: Shekhar Kapur
Elenco: Cate Blanchett, Clive Owen, Geoffrey Rush, Abbie Cornish, Samantha Morton

Princípio Ativo:
Blanchett

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A virgem

O primeiro “Elizabeth”, de 1998, mostrava uma mulher e sua luta para se tornar rainha. Já a continuação retrata a rainha em seu esforço de se afirmar como mulher. “A era de ouro” encontra a estadista em 1585, aprisionada em suas obrigações monárquicas, materializadas pelos figurinos e perucas tão belos quanto desconfortáveis, e ao mesmo tempo fascinada pela liberdade que surge na figura do pirata Walter Raleigh (Clive Owen).

O triângulo amoroso dos dois com a dama de companhia Bess (Cornish) é a melhor parte do filme, com essa última representando a existência carnal que Elizabeth, a ‘rainha virgem’, se vê impelida a renunciar. Na seqüência em que ela pede a Raleigh que não regresse à América, assistimos, junto com Owen, à batalha da estadista centrada, acostumada a dar ordens e ser obedecida; contra a mulher fragilizada por uma paixão com a qual não sabe lidar.

A rock star

E Cate Blanchett interpreta esse conflito como um Jimi Hendrix em seu solo mais inspirado. Seja no lançar os braços para frente ao falar, uma ânsia por alçar vôo, que também denuncia sua impossibilidade; seja no impecável trabalho de voz, a atriz corporifica em cada detalhe o desejo de se libertar da personagem.

Se o figurino enclausura a explosão, Blanchett - utilizando a acústica do palácio - aumenta e abaixa o volume de suas falas em um show de virtuosismo técnico quase hipnótico e tão superior ao ‘resto’, que desloca o foco do conjunto e mesmo ressalta suas carências. Como todo solo que uma música usa para ser melhor do que realmente é, ele deixa o público buscando algo mais à altura, sem encontrar.

A madona

“A era de ouro” peca especialmente no pano de fundo histórico. Ao relatar a ameaça da armada católica da Espanha, o cineasta Shekhar Kapur cai no clichê fácil de retratar os conspiradores ibéricos como feios, macabros e sempre no escuro, enquanto os ingleses são mais bonitos e caminham sempre na luz.

Seria injusto, porém, reduzir o filme à técnica de Blanchett e ao visual impecável (que tem se tornado obrigatório a filmes de época). Ele funciona como a história da rainha que sobrepuja a mulher e se descobre capaz de atos literalmente maquiavélicos, em nome de seu trono e seu povo. Acima de qualquer Deus ou julgamento moral, a não ser o seu próprio, ela grita sob o olhar da câmera que a observa, sozinha no palácio, de cima como o Deus que ela desafia.

Iconicamente, essa descoberta do que é ser um monarca absolutista se torna imagem numa cena em que Blanchett se levanta etérea, imponente, iluminada - como uma madona. Não uma rainha pop-promíscua. Uma rainha rockstar-virgem.

Mais pílulas:
- A rainha
- Piaf - um hino ao amor
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Elizabeth: like a virgin, touched for the very first time.

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