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Além do que se vê

15.02.08

por Igor Costoli

A espiã

(Swartboek, Holanda/Alemanha/Bélgica, 2006)

Dir.: Paul Verhoeven
Elenco: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Reijn, Waldemar Kobus, Derek de Lint, Dolf de Vries

Princípio Ativo:
Sadismo

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A Espiã é uma experiência cinematográfica melhor aproveitada se aceita a premissa de que Verhoeven sabe o que está fazendo. Pode não parecer, mas ele sabe.

A cantora judia Rachel (Van Houten) adota o nome Ellis depois de ser acolhida pelo movimento de resistência holandês. Após presenciar a morte de sua família e dezenas de judeus por tropas nazistas, ela se dispõe a ajudar, oferecendo-se para espionar um alto oficial alemão. Mas quem é Ellis, esta mulher em que Rachel se transformou?

Chocar é a maior habilidade de Verhoeven (Instinto Selvagem, Robocop), seja por meio do sexo ou da violência. Mas note que estes são apenas instrumentos, não o choque em si. A primeira seqüência sexual (a mais citada em todos os meios e resenhas) é logo a transformação do sexo em banalidade. É dar ao corpo uma extensão não de objeto, mas de objetivo.

Jean Renoir, de “A Grande Ilusão”, falava sobre seu filme e a Primeira Guerra: “lembrem-se que nesta época ainda não havia Hitler”, comentário que diz menos sobre aquela e mais sobre esta batalha: uma guerra que dilacerou o conceito de humanidade. Pois o sexo e a violência não estão ali para serem mais chocantes que aqueles tempos.

Quando segregaram os judeus e outros povos frente a tal superioridade ariana, os alemães definiram os termos da guerra, inclusive para os inimigos. Bons e maus, herói e vilão viraram conceitos discutíveis no vale-tudo para vencer o combate. E o drama que vira filme de guerra, que vira filme de espionagem, que vira filme de suspeitos (quem é o traidor?) passeia pelos gêneros enquanto, escondido entre outros choques, passa mensagens mais profundas.

Onde se lê “baseado em uma história real”, bem, houve mesmo um movimento de resistência, e a protagonista pode ter sido inspirada em duas mulheres que realmente existiram. Mas para mostrar o quanto a guerra mexe com a humanidade de lado a lado da trincheira, o roteiro de Gerard Soeteman, co-assinado por Verhoeven, não poupou reviravoltas que tornassem maior a desgraça de Rachel. E ainda que (bastante) inverossímil em certos momentos, você talvez já esteja entregue a Carice Van Houten, a atriz que faz crível a força de Ellis, um caso raro de grande papel feminino nesse mundo masculino do filme de guerra.

O nome original é ‘livro negro’, mas, entre tantas reviravoltas, cuidado para não perder as duas aparições discretas – porém determinantes – do tal livro. A tendência é que os buracos da história comecem a aparecer, porque são grandes. Mesmo assim, se você permanecer com o filme na cabeça por vários dias, é porque Verhoeven talvez tenha passado sua mensagem.

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