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Deus e o diabo na Terra do Sol

17.02.08

por Daniel Oliveira

Sangue negro

(There will be blood, EUA, 2007)

Dir.: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Dillon Freasier, Kevin J. O’Connor, Ciarán Hinds, Sydney McCallister

Princípio Ativo:
Kubrick na veia

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Quem é pior: Deus e sua irresponsabilidade ao conceder livre-arbítrio ao homem; ou o diabo, que se aproveita disso para incitar o que de pior existe nele?

Esse é um duelo que não se dá em apenas duas cenas perturbadoras entre o prospector de petróleo Daniel Plainview e o pastor Eli Sunday (Dano), no “Sangue negro” de Paul Thomas Anderson. O conflito é encarnado na própria figura atraentemente empreendedora e ambiciosamente monstruosa de Plainview – que, dizem, foi interpretado por Daniel Day-Lewis, mas eu não o vi no filme.

Plainview é a personificação da terra que ele perfura no oeste norte-americano do início do século passado. Seco, duro e agressivo por fora; mas complexo, cheio de camadas e rico por dentro. Quando o petróleo brota dessa terra, seu brilho viscoso é o único elemento que parece iluminar o filme. O sol forte do deserto explorado não traz luz – mais parece castigar os trabalhadores, como uma pena por se renderem à tentação da ambição, machucando o solo.

O petróleo é essa luz negra que ilumina, ao mesmo tempo em que expõe o que de pior existe no homem – especificamente em Daniel Plainview. O líquido negro se transforma no sangue (quase inexistente no longa, assim como o vermelho) do título original, substituindo-o nas veias do prospector. E, à medida que ele consegue mais e se torna mais rico, o que havia de bom nele parece ficar cada vez mais distante.

Anderson, baseado na obra de Upton Sinclair, constrói esse homem falho que, se usa o filho como Relações Públicas para comprar terras, aparenta fazê-lo simplesmente porque não o ensinaram melhor que isso. Porém, ao descobrir que poder necessita de poder, Plainview vai se transformando em um monstro corroído por cobiça. Ele percebe que para ter o econômico, vai precisar do religioso e, para o religioso, do poder da sedução. E isso faz com que o homem que procura sócios, e não uma família; que faz negócios, não cria amigos – o homem de petróleo, e não de sangue, erga-se colossal na última seqüência.

Essa tragédia épica da alma humana é orquestrada pela belíssima música de Jonny Greenwood. Emulando Kubrick sem desonrá-lo, Paul Thomas Anderson abraça a idéia de que cinema é música e usa os acordes do guitarrista do Radiohead como o braço que segura sua mão, condutora do filme. A trilha musical é como a única beleza do longa – as flores e frutos que a terra nunca oferece. É ela que traz à tona a emoção e os sentimentos se movendo em Plainview, como o petróleo na terra.

E respondendo à pergunta acima: pior que Deus e o Diabo é o homem, sedento por poder, mas fraco demais para saber lidar com ele.

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O fogo que, literalmente, consumiu Daniel Day-Lewis.

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