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Livre mercado

23.02.08

por Rodrigo Campanella

Senhores do Crime

(Eastern Promises, Inglaterra/Canadá/EUA, 2007)

Dir.: David Cronenberg
Elenco: Naomi Watts, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl

Princípio Ativo:
submundos

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Aceita-se estatuetas

Se você é careca, dourado, peladão e atende pelo nome Óscar, vai perceber logo que esse filme não quer casar contigo, ainda que apreciasse sua companhia. Um desavisado pode achar que vocês seriam parceiros ideais, afinal “Senhores do Crime” é atraente, comunicativo e bem-sucedido na vida profissional, tudo que Óscar deseja.

Só que, apesar de ter até aquele beijinho clichê antes do tchau, o sangue e o veneno que escorrem da roupa bem-cortada de “Senhores” não rimam com a vidinha oscarizada, de família tradicional e sempre afeita a um clichezão para enxergar o mundo. Ou seja, muita areia pra um caminhãozinho.

Aceita-se críticos (as)

“Senhores do Crime” também não foi feito para ser assistido com lupa na mão buscando as camadas de significado que alegram os críticos – profissionais ou na informalidade. Há mais em questão do que fica aparente, porém a maestria está em armar uma história na qual você consegue se render ao ponto de vista de cada personagem. Sem perceber já se está mergulhado dentro da tela até que os letreiros finais convidem à saída mais próxima.

Mesmo que “Senhores” pareça simples e límpido, a estilística de David Cronenberg ainda pulsa: no meio do cotidiano besta há algo sórdido, escondido de quem não quer ver, que vai explodir com estilhaços cortantes para todo lado se alguém cruzar a rua errada. É o papel da enfermeira Anna, empenhada em traduzir o diário de uma garota russa de quatorze anos, passado desconhecido, morta por hemorragia após dar à luz.

Procura-se público

Com o perdão dos puristas, o que Cronenberg está entregando é um novelão, no melhor sentido: vários núcleos em que você pena com as agruras de cada personagem, mesmo que seja o bandidão da trama; uma narrativa realista sem malabarismos e inteligente; a certeza do amargo final na boca – e a vontade inescapável de ver onde tudo vai dar. É filme que não necessariamente cresce na cabeça depois da sessão, mas que ali dentro dá uma satisfação imensa. Exige cabeça aberta e espírito desarmado.

Cronenberg realiza hoje arte em nível microscópio. Escolhe Naomi Watts para fazer real uma personagem que devia ser insuportável no papel, e Viggo Mortensen como o homem que se finge tanto de zumbi que talvez tenha virado um. Cria um visual sombrio, apurado e retrô, finalizando com o melhor elenco coadjuvante possível e uma violência estilizada que angustia. O submundo está na esquina moendo imigrantes e preparando o almoço, e nós fingimos que não. “Senhores do Crime” tira o pano da farsa e deixa as perguntas para quem assiste.


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