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O labirinto de Simón

08.03.08

por Daniel Oliveira

O orfanato

(El orfanato, Espanha/México, 2007)

Dir.: Juan Antonio Bayona
Elenco: Belén Rueda, Roger Príncep, Fernando Cayo, Montserrat Carulla, Geraldine Chaplin

Princípio Ativo:
camadas

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Existem pelo menos três filmes dentro de “O orfanato” e, em menor ou maior grau, todos eles são bem interessantes.

O filme da mulher disposta a ir até onde for necessário para não perder seu filho doente.

É a história de Laura, que se muda com o marido e o filho adotivo para a casa onde funcionava o orfanato em que passou parte de sua infância. Simón, o garoto, é portador do HIV e desaparece misteriosamente durante a inauguração do abrigo para crianças especiais que seus pais pretendiam montar na casa.

A fábula da mãe que descobre que entrar no mundo fantástico dos jogos do filho é a única maneira de não perdê-lo – a doença funcionando como ‘a maldição da bruxa má’ – é o mais belo dos três filmes. Quanto mais mergulha na busca por Simón, mais Laura se afasta dos outros personagens. E que, diferente deles, não duvidemos dela e de sua obstinação, é mérito da performance realista da atriz Belén Rueda, presente e convincente em quase todas as cenas do filme.

Como toda fábula, “O orfanato” não se isenta de uma forte carga moral. O que não é o mesmo que ser moralista, muito menos convencional. O roteiro não hesita em responsabilizar os personagens por seus atos e desejos, mas a conclusão é tão ousada quanto coerente, bem ao tom das fábulas quando de seu surgimento, na Idade Média.

O terror estilo “casa maldita” em que fantasmas do passado assombram os novos moradores.

Para chegar até lá, o filme é conduzido em um tom sombrio pelo diretor J. A. Bayona, estreante em longa-metragem. Mais afeito a bons enquadramentos e um visual convincente do que a efeitos desnecessários, ele apóia o terror do filme no ambiente opressor que circunda os personagens e aflige o público, mais próximo de “O bebê de Rosemary” que de “O grito”. Na quase ausência do sol, na figura estranhamente agressiva da praia e no aspecto velho e pouco acolhedor da casa, Bayona não quer dar sustos, e sim criar suspense.

O filme fantástico estragado pelo especialista e sua teoria doutrinária para explicar tudo.

Se há um “mas” nisso tudo é o roteiro recorrer a explicações filiadas à doutrina espírita para se explicar em determinado momento da trama. Não é vergonhoso e até rende uma seqüência de terror em uma seção mediúnica muito bem dirigida e montada por Bayona. Mas é desnecessário.

As palavras da médium conduzem Laura pelo desfecho de “O orfanato”, mas elas poderiam ser ditas sem a malfadada figura do especialista - clichê do gênero que rifa um roteiro que, fora isso, funciona muito bem. É aquela camada mais insossa de um bolo que, no conjunto da obra, não perde o sabor de uma receita bem realizada.

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Ser mãe é padecer. E nem sempre no paraíso.

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