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Uma Festa Portuguesa

13.03.08

por Rodrigo Ortega

Charlatans - You Cross My Path

(Cooking Vinyl, 2008)

Top 3: "Oh! Vanity", "Bad Days", "This is the end".

Princípio Ativo:
Insistência

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“O Charlatans é a Portuguesa do britpop”. A história da banda britânica foi bem resumida nessa comparação com o time que está sempre entre os grandes mas nunca ganha títulos, feita em uma resenha na finada revista Zero. Mas You Cross My Path, décimo disco do grupo, pode levar a uma zebra.

Pense numa festa de família, com os convidados já devidamente bêbados. Charlatans era um menino carismático o suficiente para convencer todos a irem dançar na sala. Porém, seu primo mais velho, New Order, aparecera muito antes com sua dance-music roqueira, fazendo o garoto parecer retardatário. Ele ainda podia usar sua voz de pessoa gripada e nem aí pro mundo para impressionar, mas seu irmão Oasis chegou avacalhando e chamando toda a atenção. Nem os docinhos que o pobre Charlatans tinha no bolso deram ibope, já que o priminho esnobe Coldplay chegou no final cheio de mariolas.

A virada só veio agora que a festa virou caos. De volta ao mundo real: o Charlatans liberou seu disco na internet, ao “estilo Radiohed”, com a diferença de que os internautas não podem pagar nem se quiserem, e em uma semana 30 mil pessoas baixaram, o que o levaria direto para o segundo lugar da parada inglesa, se comparado com os lançamentos tradicionais. O fato de uma banda aparentemente longe do auge da carreira ousar no formato e ter sucesso imediato é notável. Mas eu não falo de sucesso aqui por causa de números, e sim porque You Cross My Path é uma das melhores coisas que já tocou na festa do parágrafo acima.

“Bad Days” começa com aquele baixo distorcido que queria ser guitarra, emitindo notas como se fossem ordens judiciais, verdades duras que o primo mais velho ensinou a dizer. A voz anasalada e nem aí pro mundo dá a sentença com uma segurança de si que já não se ouve por aí: You know that you’re no friend of mine. Nesse cenário sombrio, a única saída é dançar: entra a bateria, guitarras e teclados que crescem até o êxtase salvador: But oh, we could never be desperate / I feel so much younger than yesterday.

Há outros exemplos como “Oh! Vanity” e “Birds”, que, numa descrição detalhada como de “Bad Days”, diriam no fim das contas o que se espera da música pop: uma obra limitada no formato e libertadora no conteúdo, com uma vida própria que se sente em cada nota ou batida. “This is the end”, a última faixa do disco, repete o movimento do desespero ao êxtase, ainda mais intenso porque fala sobre o fim: de um relacionamento, do disco, da festa, do mundo como o conhecemos.

Charlatans em cena do clipe de "Let Forever Be", dos Chemical Brothers

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