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22.03.08

por Rodrigo Campanella

Chega de Saudade

(Brasil, 2008)

Dir.: Laís Bodanzky
Elenco: Tônia Carrero, Betty Faria, Cássia Kiss, Stepan Nercessian, Leonardo Villar, Maria Flor

Princípio Ativo:
força nas pernas

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Fazer um filme sobre dança é um risco.

A matemática é simples: filmes construídos em cima de gente bailando podem ficar rapidamente chatos para quem não gosta do assunto, e até para quem aprecia. Há dezenas de exemplares de “passei um filme dançando” esquecidos nas locadoras. Provavelmente, porque é preciso sensibilidade, boa técnica e ousadia para transformar dançarinos em cinema, e isso falta num mercado que gosta de cortes ultra velozes com chibatadas nas cordas e na percussão da trilha sonora.

Topar o risco de frente é bom sinal.

Laís Bodanzky está no segundo longa-metragem. O primeiro era “Bicho de Sete Cabeças”, que já tinha um pulso firme raro para iniciantes. Nesse segundo, ela já aparece perto da maturidade completa na direção - aquela que sabe o que deseja do filme e faz cada elemento, das atuações ao posicionamento da câmera, trabalhar nesse sentido.

“Chega de Saudade” não tem excessos acenando desesperadamente por atenção. Seu jeito é o de uma bela, um pouco bruta, instalação de arte - uma tela que se abre como uma piscina para que o público mergulhe. Artistas plásticos podem ficar com inveja do resultado.

Quem assiste não está apenas observando os descaminhos de quem freqüenta a noite de dança num modesto salão de baile. O convite é para andar por dentro dessa festa tímida. Não existem imagens abertas que exibam o lugar por inteiro, o que colocaria os espectadores num pedestal superior aos personagens. Girando na tela, as imagens cortam entre detalhes. Sapatos, cinzeiros, bandejas, barras de vestidos, cílios, bandeirolas, cantores, o gordinho de camisa suada que dança num sorriso de solidão.

Melhor ainda é ir além.

As tramas correm sem eixo principal. O cinquentão malandro que paquera a adolescente e deixa de lado a amante nunca assumida, o eterno casal na pista que nunca se assumiu fora dela, a coroa bem arrumada sem par, a ricaça que vai até ali por suor e sexo. Sem ordem estabelecida, os personagens aparecem para viver um segundo a mais, e se perdem no salão. O baile da madrugada é o supremo tempo presente, a hora de ir além de uma vida mesquinha.

Câmera e edição fazem par com todos os atores, boa parte deles vinda de um star system consolidado via Rede Globo. Porém, enquanto a emissora carioca usa software para deixar os atores com cara de papel de seda, Laís Bodanzky filma de perto as rugas dessa moçada e permite que, no cinema, eles trabalhem com personagens em terceira dimensão, algo que a escalação para um papel sempre parecido nas novelas não costuma permitir.


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Devagar, e sempre

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