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How does it feel?

24.03.08

por Daniel Oliveira

Não estou lá

(I’m not there, EUA/Alemanha, 2007)

Dir.: Todd Haynes
Elenco: Cate Blanchett, Heath Ledger, Christian Bale, Ben Whishaw, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Charlotte Gainsbourg, Julianne Moore

Princípio Ativo:
linguagem

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Era uma vez um homem que queria viver, apesar do mundo. Apesar da guerra e política e corrupção e revolução e exploração e miséria e da infelicidade crônica coletiva, ele amou e se casou e teve duas filhas e uma casa com sala de jantar e TV e caixa de cereal no armário da cozinha. Mas o mundo continuava lá: nas mortes na TV, no bêbado mijando na árvore na frente da casa, nas mentes dele e dela formatadas por brincadeiras diferentes no playground quando crianças.

E ele cantou uma canção sobre isso.

Porque quando ele era jovem e negro e pobre e livre, decidiu que queria cantar sobre o vento que soprava dentro dele e o trem que cortava tudo e levava a qualquer lugar e sobre aqueles dois pretos velhos na varanda da frente cantando >i>blues melancólicos, fumando charutos e olhando para o mundo como se não precisassem de nada que ele tem a oferecer. Mas aí ela veio e disse: “você deve cantar sobre o presente. Seu mundo. Seu tempo”.

Então ele cantou uma canção sobre isso.

E outra e outra e uma série de canções que pincelavam um retrato do sindicalismo socialismo comunismo capitalismo feminismo racismo radicalismo que causavam a infelicidade crônica coletiva. Então fizeram um documentário para pincelar um retrato desse homem que descobriu que pincelar um retrato do real com suas canções é simplesmente tornar a guerra a política a corrupção a revolução a exploração a miséria mais poéticas e apresentáveis para o povo. Foi quando o homem percebeu que não sabia o que era o povo, muito menos o que fazer com ele.

E decidiu cantar uma canção sobre isso.

Absorvendo e vomitando teorias sobre o povo: o cristianismo o puritanismo o fascismo o obscurantismo (e todos os ismos cujas pílulas nossas gargantas conseguem engolir), as canções encontraram seu lugar ao se jogar no abismo do niilismo de não se importar com mais nada. E quando o homem pensava que finalmente vivia a vida nas festas e drogas e mulheres e sexo e tiradas sarcásticas, sem se importar com o mundo, o mundo passou a se importar com ele e o que ele dizia e o que não queria dizer. Tudo que criava era mal interpretado. Ele aceitava o caos, mas o caos não o aceitava. Sua vida nunca seria dele enquanto estivesse aprisionada nas versões das páginas em que o mundo tentava dar sentido à sua história.

E ele cantou uma canção sobre isso.

E eram canções-mito que contavam sua história, mas passada em outro mundo, numa cidade que adorava o Halloween, portanto não importava quem você fosse. Lá ele podia ser livre como um poeta que não teme ser preso porque o que o torna livre não pode ser enclausurado numa jaula.

E era só um homem que queria viver, apesar do mundo. E ele cantou uma canção sobre isso mas a canção só tornava a vida mais bonita do que ela realmente era. A canção era arte e a arte, por mais verdadeira que fosse, simplesmente criava outras vidas para fugir da vida que se vive. Uma canção caminha por si própria.

E um homem resolveu fazer um filme sobre isso. Sobre como é ser assim: solitário, sem lugar, como uma pedra rolando.

Não fazia sentido.

Mais pílulas:
- Filmes de músicos, filmes de música
- Oscar 2008
- Zodíaco
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Jude, ou como os fãs preferem, Judas.

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