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Os pesadelos de PJ

26.03.08

por Alfredo Brant

PJ Harvey - White Chalk

(Island, 2007)

Top 3: T"The Devil", "When Under Ether", "White Chalk".

Princípio Ativo:
velho piano e sonhos mal-assombrados

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Uma emblemática fotografia ilustra a capa de “White Chalk”, oitavo disco de PJ Harvey. A cantora inglesa está sentada, nos encarando com um olhar fixo. Sua imagem não é nítida: é como se um flash mal calculado tivesse superexposto excessivamente a fotografia. Diante de um fundo escuro, cheio de sombras, ela veste um cândido vestido branco e repousa serenamente as mãos no colo.

Assim como a fotografia, White Chalk é um álbum mal assombrado. Nunca PJ Harvey mergulhou tão profundamente nos seus - e nos nossos - fantasmas. Mas, ao contrário do que possa parecer, não é um disco depressivo e propriamente sombrio como grande parte de seus trabalhos anteriores.

A essência musical de White Chalk está num velho piano, presente na maioria das canções. PJ resolveu deixar as guitarras de lado e experimentar toda sorte de instrumentos rústicos. O piano, segundo ela, foi o que melhor unificou sua visão melódica das novas composições.

As curtas canções são de uma fragilidade aterradora. Segundo a cantora, esse é um disco voltado para a imaginação: “(White Chalk) fala também da memória e da vida, mesmo se através do prisma da morte”. Da hipnótica “The Devil” até a beleza sobrenatural de “The Montain”, PJ Harvey interpreta nos extremos de sua voz: seja em gelados agudos nos momentos mais intimistas, seja se entregando às complexas melodias nas partes mais densas. Como se ela cantasse seus medos e não tivesse medo de cantá-los. Como se isso fosse uma condição vital para sobreviver. PJ respira em cada canção.

“White Chalk” é levada por uma harpa celestial. A melodia bucólica é o pano de fundo para Harvey se deixar levar por suas memórias e citar Dorset, sua cidade natal. Já na onírica “When under Ether”, o piano dá um tom de suspense enquanto PJ descreve imagens que só podem ter vindo de sonhos perturbadores. Seria depressivo se ela não cantasse de maneira tão celestial que faz os 2 minutos e 25 segundos da canção parecerem durar uma vida.

Nada se assemelha verdadeiramente aos trabalhos precedentes de PJ. Forçando um pouco talvez “To talk to you” ainda tenha algo do neoblues dos primeiros anos, mas sua voz não é grave e as guitarras estão ausentes. Há mais harmonia e menos caos. White Chalk é um disco sobre sensações fortes. Um trabalho difícil, porém precioso, fruto da sensibilidade e do talento de uma artista ímpar de sua geração.

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