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Paris, a cidade dos amantes

08.04.08

por Daniel Oliveira

2 dias em Paris

(2 days in Paris, França/Alemanha, 2007)

Dir.: Julie Delpy
Elenco: Julie Delpy, Adam Goldberg, Marie Pillet, Albert Delpy, Daniel Brühl, Aleksia Landeau, Adam Jodorowski, Alexandre Nahon

Princípio Ativo:
neuroses e diálogos allenianos

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Apesar de emular outros filmes e perder um pouco o rumo no final, “2 dias em Paris” é uma comédia romântica melhor que 90% dos exemplares atuais do gênero. O longa de Julie Delpy começa à la

O fabuloso destino de Amelie Poulain
com a protagonista (francesa) Marion narrando fatos aleatórios sobre seu relacionamento, sua personalidade e suas estranhices de infância, ilustrados por montagens de fotos e recursos metalingüísticos. Logo em seguida, o espectador tem a impressão de estar

Entrando numa fria
junto com o namorado de Marion, o nova-iorquino Jack (Goldberg) quando, durante um final de viagem à Europa, ele é apresentado aos excêntricos pais da moça (os próprios pais de Delpy). Não demora muito, porém, e percebe-se que eles são só mais um caso de

Noivo neurótico, noiva nervosa
sendo confrontados com as dificuldades de um relacionamento e das diferenças culturais, à medida que Jack é apresentado aos (vários) ex-namorados de Marion.

Dos bem sucedidos “Antes do amanhecer/pôr-do-sol”, Delpy trouxe os longos planos em que a câmera acompanha os personagens por (longos) diálogos. Já o ritmo, inteligência e humor deles descendem dos melhores dias de Woody Allen, assim como os personagens: sarcásticos, neuróticos e antenados com (e afligidos pela) overdose científico-analítica de sua geração - Jack ainda é judeu, hipocondríaco e de uma verborragia inconfundivelmente alleniana.

Em sua estréia na direção, Delpy capta um timing cômico admirável de seu elenco. E ao saber exatamente quando encerrar a cena, sem comentários desnecessários forçando a piada, ela se mostra confiante no seu roteiro e nos constrangimentos vividos por Jack. É um humor apurado (mas não pedante) e, caso você não tenha a mínima idéia do oceano (cultural) que separa EUA e França, pode boiar. Mas é quase impossível não simpatizar com o choque do puritanismo norte-americano de Jack com a não-solicitada sinceridade dos ‘ex’ de Marion – que, como bons franceses, não hesitam em usar as palavras sexo, pênis e vagina em quase todas as frases.

Só que, não se engane, o filme é de Delpy – que escreve, dirige, protagoniza e compõe parte da trilha. Essa ‘posse’ a permite ‘interromper’ uma cena no final e iniciar um monólogo, muito bonito, que tenta dar ao longa uma profundidade emocional maior do que a proposta até ali. Tarde demais: o público já havia aceitado que “2 dias em Paris” era uma comédia e o texto soa deslocado – assim como a esdrúxula participação de Daniel Brühl. É uma pequena derrapada de iniciante que, contudo, não impede que esperemos ansiosos pelo futuro match point de Julie Delpy.

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Julie Delpy & Adam Goldberg. Mas pode chamar de Diane Keaton & Woody Allen.

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