Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Hope & Faith

17.04.08

por Daniel Oliveira

Apenas uma vez

(Once, Irlanda, 2007)

Dir.: John Carney
Elenco: Glen Hansard, Markéta Irglová, Bill Hodnett, Danuse Ktrestova, Hugh Walsh, Gerry Hendrick, Alaistair Foley

Princípio Ativo:
um encontro musical

receite essa matéria para um amigo

O clichê hollywoodiano prega que, na estrutura ‘garoto conhece garota’ de “Apenas uma vez”, os dois protagonistas deveriam se apaixonar, enfrentar obstáculos, desentender-se e, ao final, ficar juntos.

Graças a Kubrick, o filme e seu diretor-roteirista, John Carney, são irlandeses e nada do previsto acima acontece. O longa abole todos aqueles clichês mais previsíveis, conseguindo ser simples, emocionante e genuíno ao contar uma história de traços tão familiares.

Nela, o rapaz é um cantor de rua em Dublin; e ela, a garota que se encanta com uma de suas composições. Ele é daqueles sujeitos que passou tanto tempo distribuindo pérolas a porcos, que começa a duvidar de que sejam realmente pérolas. Ela é alguém que enxerga nele a música, pura e simplesmente – e se apaixona pela arte que ele encarna, e não pelo homem em si.

Da natureza dessa paixão, vem a dispensabilidade de nomes - e a esperança que a garota passa a representar para ele, capaz de tirá-lo de sua estagnação. Como fruto da interação dos dois, as canções representam bem a personalidade de cada um. Ela é a esperança do refrão de Falling slowly, enquanto ele é a força dramática dos versos. Fallen from the sky, a música sobre ela, é uma das mais felizes. Já Say it to me now, sobre a história dele, é tensa e passional.

Da mesma forma, o roteiro explora a personalidade dos atores-cantores Glen Hansard e Markéta Irglová. No filme, ele é o performer, cheio de caras e trejeitos, e ela é o pragmatismo e a timidez – assim como no palco, Glen é o responsável por expressar a emoção das canções em sua performance, enquanto Markéta se esconde atrás do piano e da delicada voz.

E se John Carney limou os clichês do roteiro – semi-autobiográfico, sobre o período em que foi membro da banda de Hansard – fez o mesmo com a filmagem. O longa não utiliza nenhum artifício irreal de fotografia, nem há luzes divinas para denunciar a genialidade da dupla. A iluminação cinzenta de Dublin é a imagem das adversidades financeiras e da vida difícil que impedem os protagonistas de realizar o sonho da carreira musical.

No fim, o filme é sobre aquele encontro, pelo qual muitas pessoas esperam toda uma vida, capaz de dar sentido e força para ultrapassar a linha do medo que nos afasta – de qualquer tipo – de sucesso. Não se trata necessariamente de um encontro de amor romântico, como mostra o filme – pode ser um amigo, irmão, um estranho, simplesmente alguém tão cheio de esperança que nos faça acreditar de novo.

Infelizmente, esse encontro quase nunca acontece. E é por isso que nós assistimos a filmes assim, como “Apenas uma vez”.

Mais pílulas:
- Damien Rice
- Marcas da vida
- Hairspray - em busca da fama
- Navegue por todas as críticas do Pílula

Ele, ela e a música que os liga.

» leia/escreva comentários (7)