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Medo da ambigüidade

18.04.08

por Daniel Oliveira

Os reis da rua

(Street kings, EUA, 2008)

Dir.: David Ayer
Elenco: Keanu Reeves, Forest Whitaker, Hugh Laurie, Chris Evans, Jay Mohr, John Corbett, Common, The Game

Princípio Ativo:
James Ellroy encontra Tropa de Elite

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Um dos filmes policiais norte-americano mais interessante que eu vi recentemente (e que foi lançado no Brasil direto em DVD) é “Medo da verdade”, dirigido por (ele mesmo) Ben Affleck. A imprevisibilidade do desenrolar da busca por uma garota de seis anos seqüestrada em Boston se dá pela amoralidade do escritor Dennis Lehane (o mesmo de “Sobre meninos e lobos”) no tratamento de seus personagens. Nele, a coisa certa nem sempre é o melhor a se fazer, em nuances tão delicadas que tornam impossível condenar as decisões que os envolvidos são obrigados a tomar.

É essa a ambigüidade ausente n’Os reis da rua”, em favor de uma trama – amarga – mastigada até se tornar palatável. Sem ela, o filme é mais uma história de redenção do anti-herói, no caso, o policial ‘máquina de matar’ Tom Ludlow (Reeves), um cruzamento de Capitão Nascimento e Neo. Após presenciar a execução de um colega prestes a denunciar suas ações ilegais, ele tem uma crise de consciência e inicia uma busca por justiça a qualquer preço.

David Ayer já esteve próximo de uma maior complexidade moral com o roteiro de “Dia de treinamento”. Aqui, ele assume apenas a cadeira de diretor. É James Ellroy quem adapta sua própria história, um clássico whodunit noir, com a ajuda (?) de Kurt Wimmer (das pérolas “Ultravioleta” e “Esfera”) e Jamie Moss. A história deles pretende ‘escancarar’ a corrupção de uma ‘polícia fora-da-lei’, mas os personagens caricatos e os diálogos explicativos demais boicotam o caráter realista buscado pelo roteiro.

Quem mais sofre com isso é Forest Whitaker. Como o capitão Jack Wander, chefe de Ludlow, ele é obrigado a proferir discursos ridículos de ‘é assim que a coisa funciona...é assim que a polícia trabalha’ etc, num piloto-automático constrangedor. O único que se sai melhor é Hugh Laurie interpretando o Dr. House interpretando um investigador de Assuntos Internos. Na primeira aparição dele, você quase tem certeza de que é mesmo o House invadindo o filme.

Chatices à parte, se você estiver procurando uma diversão desliga-cérebro, “Os reis da rua” cumpre o papel. Ayer é um bom diretor de ação, a fotografia tem um tom esmaecido/crepuscular condizente com a decadência moral do filme e a quantidade de tiroteios vai agradar bem aos meninos – meninas, passem longe. Ainda que Reeves não seja Denzel Washington, que o ‘chefão’ por trás do esquema fique óbvio com 15 minutos de projeção e que o filme podia ser bem mais do que ele é, o longa passa acima da média.

O que não torna perdoável a não-exibição – o verdadeiro crime dessa história – de “Medo da verdade” nos cinemas brasileiros.

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Everybody lies, Mr. Whitaker! Até reis da Escócia e ganhadores do Oscar.

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