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Em nome da lentidão

29.07.08

por Igor Vieira

Luz silenciosa

(Stellet licht, México/França/Holanda, 2007)

Dir.: Carlos Reygadas
Elenco: Elisabeth Fehr, Jácobo Klassen, Maria Pankratz, Miriam Toewz, Cornélio Wall, Peter Wall

Princípio Ativo:
desespero silencioso

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O lento amanhecer dá uma dica do que podemos esperar pelas próximas duas horas de “Luz Silenciosa”, ganhador do prêmio do júri no festival de Cannes de 2007: belas imagens, em sua maioria filmada com luz natural (assim garante o assistente de direção Alex Expeleta), e pouquíssima ação.

Johan (Cornélio Wall) é um pai de família em uma comunidade menonita no norte do México. Os menonitas são protestantes que vieram da Europa para a América no início do século XVI e se estabeleceram no México na década de 20. São como os amish nos Estados Unidos e Canadá, vivendo pacificamente e pregando contra o progresso. A comunidade de Johan é mais moderada e já se beneficia de meios de transporte e avanços da medicina.

Ao lado da mulher Esther (Miriam Toews) e seus incontáveis filhos, ele segue uma rotina captada sem pressa pela câmera do diretor Carlos Reygadas. Se as rotinas das grandes cidades nos parecem enfadonhas, experimente os longos silêncios que acompanham os minutos intermináveis de orações à mesa, ordenhas do rebanho de vacas e trajetos de carro. Acostumados a um ritmo diferente de cinema, é possível perguntar se o filme em questão é mesmo latino-americano. Entretanto, o marasmo em cena é explicado não só pelo pacifismo do povo menonita, mas também pelo dilema ético e moral que acompanha a família.

Vivendo sob a lei divina, Johan, que diz amar a esposa e os filhos, descobre-se apaixonado por outra mulher. Marianne (Maria Pankratz) é a dona de um restaurante que completa o triângulo amoroso da história. Crendo em si como pequenas peças de um desígnio maior de Deus, esses três vértices seguem sofrendo em silêncio, sem se confrontar.

O elefante branco dentro do quarto é ignorado e o incômodo da situação é sempre maior para o outro. “Pobre Marianne”, diz Esther. “Pobre Esther”, diz Marianne. “Pobre Johan”, dizem as duas. Quando a tensão cresce a um nível tal que é impossível não fazer algo a respeito, o confronto dos personagens levará a uma tragédia que decidirá por eles o seu destino.

As chances de se levantar da poltrona antes da sessão terminar são muitas. Mas aqueles que procurarem algo mais na obra de Reygadas não se arrependerão. A certa altura, o romance insosso e sem química dos amantes envolve - e seu drama ganha nossa compaixão quando, após um encontro fortuito, eles dão as mãos às escondidas na frente dos filhos de Johan e dos funcionários de Marianne. O final também guarda uma surpresa, no mínimo inusitada, e um anoitecer ainda mais belo que a aurora do início.

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Olhando a vida passar: Êta vida besta, meu Deus!

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